segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Podemos respirar, mas sem baixar a guarda.

A vitória de Lula mostra que ainda é possível despertar o instinto de sobrevivência de um povo e faz do Brasil um farol para um mundo sitiado pela extrema direita.

Luiz Inácio Lula da Silva comemora sua vitória eleitoral neste domingo./Crédito: Amanda Perobelli (REUTERS)

Nunca antes na história do Brasil houve uma reviravolta como esta. Nunca antes na história deste país, como gosta de dizer Luiz Inácio Lula da Silva, se viu algo tão belo. Nem mesmo o movimento de redemocratização, após 21 anos de ditadura, mobilizou tantas pessoas comuns como agora, para derrotar o fascismo representado pela família Bolsonaro. Foi Maria, foi João, foi Ana, foi José contra a Meta de Mark Zuckerberg, que até a ONU apontou ter reduzido o alcance de cargos em favor de Lula. Foi Raimunda, foi Francisco, foi Carolina, foi Paulo que convenceram os indecisos de que o Bolsonarismo não é de direita, muito menos conservador, mas sim fascismo. E agora Lula, reeleito, deve seu mandato ao povo, como deve ser. Porque o que vimos no Brasil nas últimas três semanas foi a democracia sendo exercida em sua capacidade máxima para impedir que o bolsonarismo retorne ao poder, corrompa a Constituição, leve a floresta amazônica a um ponto sem retorno e se curve diante de Donald Trump.

A democracia no Brasil triunfou em um mundo onde o fascismo está em ascensão. A democracia pela qual tantos brasileiros lutaram, pela qual nossos pais e avós lutaram; a democracia pela qual muitos sofreram torturas brutais em defesa, pela qual outros permanecem desaparecidos até hoje e pela qual outros ainda foram assassinados por agentes do Estado. A democracia que começou a enfrentar a violência estrutural contra pessoas negras com o Estatuto de Igualdade Racial e cotas raciais nas universidades. A democracia que tirou o Brasil do mapa da fome. A democracia que permitiu que os mais pobres tivessem acesso ao ensino superior. A democracia que fortaleceu os direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais. A democracia que garantiu o programa social Bolsa Família. A democracia que salvou o que resta da Floresta Amazônica, do Cerrado, do Pantanal, da Mata Atlântica, da Caatinga e do Pampa. A democracia que criou o SUS, o maior sistema público, universal e gratuito de saúde do mundo. A democracia que garantiu o direito de todos viverem sua orientação sexual e formarem famílias com diversas composições de gênero, respeitando as diferenças e reconhecendo que a diversidade é um patrimônio. A democracia que impulsionou a cultura para além dos limites dos círculos de elite. A democracia que nos permitiu ser quem somos.

Após testemunhar o movimento progressista paralisado por tantos anos, imobilizado pelos horrores cometidos por Jair Bolsonaro durante sua presidência e pelo Congresso ao longo de tantas sessões legislativas, o surpreendente despertar após o primeiro turno das eleições transformou o Brasil em um farol para o mundo. Porque é possível despertar o instinto de sobrevivência de um povo. E a maioria dos brasileiros foi às ruas — físicas e digitais — para lutar por suas vidas. Como se o Brasil, em sua mais bela beleza, tivesse se reencontrado.

Isso é motivo de comemoração, mas devemos permanecer vigilantes. A luta continuará sendo muito difícil. O que o Brasil conquistou em 25 de outubro foi adiar o pior. Lula terá que enfrentar quatro anos muito difíceis, em um contexto nacional e global dramático, e em idade muito avançada. O presidente reeleito terá que confrontar um Congresso dominado por apoiadores de Bolsonaro. Lula sozinho não pode deter o ataque fascista que corrói as instituições. O movimento que garantiu sua permanência no poder precisará ser sustentado e ampliado. Não mais apenas um “exército de Lula”, mas comunidades de reflexão e ação. Campanhas nas redes sociais são necessárias, mas muito mais do que isso é preciso: precisamos debater e planejar estratégias. Precisamos construir um caminho para o sucesso até 2030. E talvez o mais difícil de tudo: o Brasil que venceu precisa ouvir os quase 60 milhões de brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro, porque eles têm algo a dizer que não pode ser ignorado.

Por mais espetacular que tenha sido essa recuperação nas atuais circunstâncias adversas, é preciso entender que se trata de uma vitória importante, porém temporária. A democracia brasileira permanece em grave perigo. Agora, o desafio é saber se o poder redescoberto do povo será capaz de sustentar a mobilização necessária no dia seguinte.

Eliane Brum, jornalista, para o EL PAÍS, em 26.10.26

Lula conquista virada inédita e terá quarto mandato como presidente do Brasil: 'Vamos ter que regular as plataformas digitais'

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25/10) pela segunda vez e cumprirá seu quarto mandato como presidente da República até 2030, acumulando mais da metade deste século no poder no Brasil.

Lula foi reeleito pela segunda vez em virada inédita

Com 100% das urnas apuradas, Lula, que completa 81 anos na terça-feira (27/10), amealhou mais 64 milhões votos, com uma diferença de pouco mais de 4,4 milhões de votos em relação a Flávio Bolsonaro (PL), considerada irreversível pela Justiça Eleitoral.

Nunca antes na história da democracia brasileira um presidente se reelegeu duas vezes. É igualmente inédito o feito de arrancar uma vitória depois de ter ficado em segundo lugar no primeiro turno.

Lula chega a uma virada histórica embalado por uma campanha que renasceu após a derrota no primeiro turno, com manifestações multitudinárias nas ruas e ação massiva nas redes sob comando do deputado André Janones (Rede-MG), boa parte disso sem atuação direta da própria direção do PT.

"Eu quero agradecer a esse companheiro aqui, o Janones, o nosso general que teve um papel exponencial nessa campanha para levantar, diariamente, de manhã, de tarde e de noite, a moral da nossa tropa", disse Lula, em seu discurso de vitória na noite deste domingo.

O ex-metalúrgico que virou o líder inconteste da esquerda brasileira desde sua primeira eleição presidencial, em 1989, está, no entanto, diante da conjuntura mais difícil desde que chegou ao poder pela primeira vez, em 2003.

Seu novo mandato previsto para ter início em 5 de janeiro de 2027 começará com travas claras no mundo político interno - mas também externo, com a hostilidade ativa de Donald Trump -, além de desafios econômicos imediatos, sob forte desconfiança de agentes do mercado financeiro.

À frente de um país cujo eleitorado está partido ao meio, Lula terá de governar com o Congresso mais à direita da história brasileira desde a redemocratização: o PL de Flávio Bolsonaro foi o partido que mais cresceu nesta eleição, chegando à marca histórica de 121 deputados federais na Câmara. No Senado, a sigla terá 28 parlamentares a partir do ano que vem.

"Vai ser um cenário inédito, desafiador na Câmara e beirando a incapacidade de se fazer política no Senado. Nunca houve um cenário assim, em que uma das Casas é claramente de oposição. Ele não vai ter espaço algum no Senado", diz Lucas Aragão, cientista político e sócio da Arko Advice.

Segundo Aragão, Lula poderá cavar algum espaço de apoio na Câmara, especialmente se conseguir se aliar ao Centrão. Mas no Senado há menos caminhos para negociação.

Ainda durante a noite de domingo, o presidente reconhceu o cenário adverso no Congresso, mas disse que foi o povo quem escolheu o Congresso, "e eu vou trabalhar para votar e aprovar as coisas".

Para tentar garantir alguma governabilidade, diz Aragão, Lula terá que tentar aprovar propostas que conversem minimamente com a pauta da direita ou que tenham muito apelo popular, como foi a PEC do fim da escala 6x1. Ainda assim, avalia Aragão, Lula teria à disposição um arsenal limitado de ações.

Lincoln Secco, historiador, professor da USP e autor do livro A História do PT (Ateliê Editorial) lembra que, historicamente, o governo petista prefere tentar a negociação ao confronto. Resta saber qual será a postura adotada agora, diante de um Congresso tão antagonista.

"Não sabemos se, pela primeira vez, o governo vai tentar mobilizar a sociedade civil para sensibilizar o Congresso, como aconteceu com o fim da escala 6x1, ou se vai manter o que é a marca do PT governista desde que chegou ao poder em 2003, que é buscar a conciliação e não ir pro embate", diz ele.

Com o Congresso desfavorável de um lado, e a forte mobilização nas rua, Lula prometeu nos últimos dias da campanha defendendo "um novo jeito de governar".

"Depois da nossa vitória a gente vai ter que discutir um novo jeito de governar este país. A participação do povo nesta campanha, a saída na rua dos estudantes, das mulheres, dos trabalhadores, vai nos obrigar a fazer um novo jeito de governar este país. Este país nunca mais será o mesmo", afirmou Lula em uma live que fez com seu "general" de campanha Janones, que reuniu inéditos 10 milhões de militantes pró-Lula no WhatsApp.

Em seu discurso de vitória, Lula repetiu a ideia de mudança. Afirmou que as redes sociais terão papel maior em seu novo governo, e defendeu a regulamentação das plataformas. Reconheceu não ser um presidente da maioria, e disse que "ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos".

"Foi uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais. E nós vamos ter que regulá-las", afirmou o presidente.

"Não é possível que a gente não tenha consciência que o crime no mundo digital tem que ser tratado igual um crime na vida real. Nós não podemos ter empresas monstruosas e grandes ganhando milhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para esse país e tentando direcionar o resultado eleitoral desse país", concluiu.

Contas pressionadas e baixa aprovação

Mesmo antes de 5 de janeiro, data em que ocorrerá a posse presidencial, Lula terá que responder à cobrança do mercado financeiro por um ajuste nas contas públicas, dado o alto nível da dívida, e lidar com a insatisfação dos brasileiros com o custo de vida e o endividamento recorde. Tudo isso, em meio a uma economia que deverá crescer menos em 2027.

O petista chega ao quarto mandato com menos da metade da população aprovando seu atual governo. No sábado, na última pesquisa Datafolha antes do segundo turno, 49% dos brasileiros aprovavam a gestão petista, com apenas 36% de ótimo e bom, ante 48% que desaprovavam..

O índice é baixo, se comparado com os dois primeiros governos do petista. Isso evidencia que os níveis de aprovação avançaram, mas não tanto, em resposta à série de medidas populares que o governo lançou a partir do fim do ano passado. A começar pela isenção de imposto de renda para a classe média, que foi implementada ao lado de um inédito acréscimo de imposto para os mais ricos.

A mudança no IR se somou a um pacote bilionário de "bondades" que o Planalto lançou em plena reta final da campanha. Entre elas, está o reajuste do Bolsa Família (com custo de R$ 22 bilhões a mais no orçamento de 2027), além do perdão de dívidas para MEIs (que terá impacto de R$ 3 bilhões entre 2027 e 2029) e o novo programa para tentar aliviar o endividamento, o Desenrola 3.

Mesmo assim, o sentimento da população é de insatisfação com a economia, segundo Aragão. "O governo não conseguiu gerar conforto econômico na população", diz. "Por mais que no papel a economia esteja ok, com desemprego baixo, crescimento ancorado em dinheiro e em consumo, ainda assim não conseguiu imprimir um ritmo de bem-estar econômico na maior parte da população."

Ainda no cenário fiscal, o impacto dos juros em patamares elevados ao longo de toda a gestão Lula 3 pressionou o endividamento das famílias e do governo, sob desconfiança por parte do mercado.

A dívida bruta do governo geral — que inclui governo federal, Previdência, Estados e municípios — chegou a R$ 11,1 trilhões em agosto, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos no país), segundo o Banco Central.

O endividamento do governo aumenta quando ele gasta mais do que arrecada com impostos. Sem dinheiro em caixa, ele é obrigado a pegar mais dinheiro emprestado, a juros mais altos, numa "bola de neve" fiscal.

A dívida pública alta — e sem perspectiva de estabilização do seu nível em relação ao PIB nos próximos anos — gera dúvidas quanto à capacidade do governo de honrar suas obrigações.

No entanto, se Lula fez acenos à direita na campanha na área de segurança, com o apoio inédito à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes graves e hediondos, não fez nenhuma concessão ao centro em termos econômicos.

Ainda que economistas avaliem que um corte de gastos vai ser necessário em 2027, Lula jamais acenou com um ajuste fiscal quando perguntado.

Seu programa de governo, enviada ao TSE, promete aumento do poder de compra de aposentados e pensionistas e de beneficiários do BPC, medida vista com desconfiança por parte dos economistas devido ao impacto nas contas públicas.

Altos e baixos e a virada do 'general'

Lula fez história de novo ao virar uma eleição disputada voto a voto na maior parte do tempo.

Antes mesmo da campanha começar, no início do ano, Lula e Flávio caminharam próximos nas pesquisas eleitorais, segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil. Foi em maio que ocorreu a primeira virada.

O agregador mostra que Lula conseguiu navegar de maneira mais confortável após o escândalo do Dark Horse, o filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.

Conversas vazadas do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Máster preso desde março, mostraram que Flávio pediu dinheiro ao banqueiro para financiar o longa. Os R$ 134 milhões pedidos pelo senador eram quase o dobro do orçamento total do filme - R$ 75 milhões - segundo a produtora Go UP Entertainment.

A produção, que teve a estreia adiada para o ano que vem, virou alvo de inquérito da Polícia Federal. Os investigadores suspeitam que o dinheiro tenha servido para bancar Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Mas no celular de Vorcaro também estavam mensagens que apontavam para uma relação próxima ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. E quando essas conversas começaram a vazar, o conforto de Lula se transformou em aperto, segundo as pesquisas de preferência de voto.

"O governo tomou uma porrada no primeiro turno abraçado com o STF", diz Aragão. Segundo ele, a percepção da população é de que o governo é próximo ao Supremo.

Assim, mesmo tentando a ação ousada de proibir, por meio de uma medida provisória, as bets pouco mais de uma semana antes do primeiro turno, Lula levou a pancada do resultado das urnas em 4 de outubro. E perdeu pela estreita margem de 2,2 milhões de votos.

No dia seguinte, o petista colocou os pés no segundo turno como virtual derrotado para muitos analistas. Com esse cenário, o mercado ficou eufórico: a bolsa disparou e o dólar baixou. A expectativa do setor financeiro diante de um ajuste fiscal prometido por Flávio impactou positivamente o humor da Faria Lima.

Ao longo do mês, a distância entre os dois candidatos — que no primeiro turno foi de menos de 2% — foi se ampliando, mas sob um teto baixo. A máxima diferença foi de 4 pontos percentuais no dia 7 de outubro, segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil. Depois disso, a diferença foi se fechando.

Para Secco, a virada do primeiro para o segundo turno não foi mérito só do PT, mas também um erro estratégico de Flávio. "Enquanto espontaneamente a militância do PT foi para as ruas, o Flávio apresentava apoio de pessoas do sistema, como o Ronaldo Caiado e o Michel Temer", diz.

"Ele ficou de salto alto, apontando nomes para os ministérios; isso prejudicou a campanha dele no segundo turno."

Por outro lado, Lula conseguiu mobilizar espontaneamente milhares de apoiadores em manifestações pelas ruas e nas redes sociais. A esquerda, que tradicionalmente perdia para a direita no Brasil nas mobilizações nas redes sociais, contou com a regência de peso de Janones e seus seguidores.

Sob as coordenadas do deputado, que na reta final conseguiu reunir mais de 10 milhões de apoiadores em um canal de WhatsApp, a militância em prol de Lula se organizou para "virar o voto".

A tarefa era difícil em um país tão polarizado, e o tempo não jogou a favor - somente três semanas separaram os dois turnos. Mas havia margem - 33 milhões de eleitores não haviam votado no primeiro turno. E havia um novo "general" nas filas petistas: a abstenção caiu ao menos 1,88 ponto e os votos brancos e nulos recuaram pelo menos um ponto.

A virada inédita seguiu, por outro lado, um caminho conhecido pelo líder sindical: "Eu nunca ganhei eleição no primeiro turno", disse ele em seu discurso da vitória. "Mas nunca perdi no segundo turno", ironizou.

Marina Rossi, jornalista, para a BBC News Brasil em São Paulo. / Gráficos por Caroline Souza, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Você precisa entender isso.

O Brasil não está enfrentando eleições normais: elas podem significar o fim da democracia, o estabelecimento do fascismo e a morte de muitos.

Um bombeiro trabalha em uma área da Amazônia. /  Suamy Beydoun (EFE)

Com sua permissão, esta coluna será muito pessoal desta vez. É uma decisão motivada pela gravidade do momento. Suspeito que a maior parte da população mundial desconheça o que está acontecendo no Brasil, ou como isso afeta a vida no planeta. No próximo domingo, 25 de outubro, ocorrerá o segundo turno das eleições brasileiras. Os eleitores decidirão se Luiz Inácio Lula da Silva será reeleito ou se o Bolsonarismo, um projeto de extrema direita personificado pela família Bolsonaro, retornará ao poder. Desta vez, o projeto fascista é representado por Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso por tentativa de golpe de Estado. Estas não são eleições normais, e qualquer pessoa que as trate como se as duas opções em disputa fossem compatíveis com a democracia está desinformando os leitores. A neutralidade é impossível quando o que está em jogo é a própria democracia, a sobrevivência da Amazônia e a vida de muitos.

O que temos nestas eleições brasileiras não é, de forma alguma, uma disputa entre esquerda e direita. No Brasil, a alternância de visões políticas, pendendo mais para a esquerda ou para a direita, sempre existiu desde a redemocratização do país em 1985. Mas ninguém tinha motivos para temer pela própria vida se a oposição vencesse as eleições. Era parte da democracia, e isso se repetiu em eleições subsequentes. Desde a ascensão do Bolsonarismo, esse não é mais o caso. A história da família Bolsonaro e as evidências demonstram que o Bolsonarismo é um projeto para se perpetuar no poder. Talvez não por meio de um golpe de Estado clássico, como Jair Bolsonaro tentou, mas destruindo a democracia por dentro, corrompendo a Constituição e controlando as instituições.

O campo progressista insiste que a direita deve apoiar Lula se quiser continuar defendendo sua visão para o país, já que existe uma grande possibilidade de não haver mais eleições caso Flávio Bolsonaro seja eleito no próximo domingo. Buscando os votos daqueles que se abstiveram, votaram em cédulas inválidas ou depositaram cédulas em branco — um grupo de quase 39,5 milhões de pessoas que podem decidir a eleição —, as contas do campo progressista nas redes sociais repetem o slogan: “Esquerda e direita contra o Bolsonarismo”. Esta é uma lição que o segmento da direita global que acredita poder apoiar a extrema-direita para ganhar terreno precisa aprender. A extrema-direita não divide o poder.

Na campanha eleitoral brasileira, sinais de fascismo estão por toda parte. Neste momento, muitas áreas da floresta amazônica estão em chamas . É muito difícil determinar quem iniciou um incêndio florestal, mas há uma coisa que podemos afirmar com certeza, graças às imagens de satélite: os incêndios estão concentrados em áreas onde os apoiadores de Flávio Bolsonaro têm interesses. Os incêndios queimam com mais intensidade onde eles querem converter a floresta tropical em pastagens, monoculturas de soja ou terrenos para especulação imobiliária. Segundo alguns relatos, grupos armados de invasores estão posicionados nas fronteiras de terras indígenas, esperando que Flávio Bolsonaro vença as eleições para poderem entrar, arrasar e se apropriar das terras. Em cidades onde a mineração ilegal é uma força política, equipamentos e maquinário pesado estão sendo preparados para serem mobilizados assim que um governo de Flávio Bolsonaro lhes garantir apoio e impunidade. Na Universidade Federal de Pernambuco, alguns estudantes receberam mensagens ameaçadoras de apoiadores de Bolsonaro. Em seguida, três incêndios ocorreram no prédio em um período de oito dias. A Polícia Federal ainda está investigando se os eventos estão relacionados, mas a coincidência é suspeita.

Quando Jair Bolsonaro foi eleito , alguns brasileiros tiveram que deixar o país, e outros foram obrigados a buscar proteção no âmbito do programa para defensores de direitos humanos, jornalistas e ambientalistas para evitar serem assassinados. Agora, em 2026, a situação é muito mais grave, e as condições para a destruição da Constituição são muito mais favoráveis. Se a família Bolsonaro vencer, controlará o Congresso, terá o Supremo Tribunal Federal sob seu controle e toda a máquina do Estado à sua disposição. Com a oposição já reforçando a segurança interna e elaborando planos de fuga caso o fascismo prevaleça, ninguém em sã consciência pode afirmar que estas eleições são normais.

Sim, muitos brasileiros estão com medo. Medo de vivenciar os horrores do fascismo, medo de serem forçados ao exílio, medo de serem mortos. Mas os países democráticos também têm muito a aprender com as eleições brasileiras e muito a temer: por toda parte há sinais de que o Brasil pode ser o próximo país.

Eliane Brum, a autora, é uma das jornalistas brasileiras mais premiadas - recebeu o Prêmio Maria Moors Cabot (USA) em 2021 por sua trajetória profissional. A revista britânica Prospect a nomeou a pensadora mais influente do mundo em 2025. É fundadora e diretora da plataforma trilíngue Sumaúma, com sede na Amazônia. Este artigo foi publicado por EL PAÍS, diário global editado em Madri (Espanha), em 21.10.26

sábado, 10 de outubro de 2026

Levantamento mostra que parlamentares reeleitos receberam mais votos onde lideraram envio de recursos; veja dados

A cada R$ 10 enviados em emendas nos últimos três anos, R$ 7 foram para o grupo de cidades onde tiveram melhor desempenho no domingo passado

Felipe Carreras (PSB) festeja votos em cidade que liderou em emendas; Motta (Republicanos) multiplica resultado em Várzea após recursos; Vieira (PSDB), líder emSão João de Meriti após R$ 50milhões — Foto: Reprodução/Redes sociais

Há quatro anos, o deputado Felipe Carreras (PSB-PE) obteve 83 votos em Santa Cruz do Capibaribe, município de 98 mil habitantes no Agreste pernambucano. Na ocasião, foi apenas o 33º mais lembrado. No domingo, quando o resultado da eleição à Câmara foi divulgado, o cenário já era outro. Carreras foi o campeão das urnas no município, com 22,3 mil votos. Entre uma eleição e outra, foi ele quem mais destinou emendas individuais para a cidade, com R$ 7,9 milhões, expondo a cada vez maior influência das verbas federais no resultado eleitoral.

(Datafolha: 13% dos ausentes em 2026 mencionam desinteresse na eleição como motivo para não votar no primeiro turno)

Levantamento do GLOBO mostra que a cada R$ 10 enviados em emendas nos últimos três anos, R$ 7 foram para o grupo de municípios em que os deputados tiveram suas maiores votações proporcionais no domingo passado. Os dados indicam que em 90% das cidades em que um único deputado respondeu por mais da metade das emendas — caso de Carreiras —, o parlamentar terminou entre os três candidatos mais votados. Em 70% delas, foi o primeiro colocado.

“O federal campeão em recursos é também o federal campeão de votos da cidade!”, comemorou Carreiras em suas redes sociais. Durante a campanha, o parlamentar também publicou diversos vídeos destacando as obras realizadas na cidade. “Santa Cruz virou um verdadeiro canteiro de obras, e por trás de cada avanço tem uma palavra que faz toda a diferença: parceria”, escreveu o deputado em uma das publicações. Procurado, ele não respondeu.

— As emendas estão se tornando cada vez mais um motor importante para a eleição dos deputados e eles estão reforçando cada vez mais o caráter paroquial: ‘Quanto mais destino emenda para determinado reduto, mais eu tenho votos ali, mais eu trabalho pensando nesses redutos e não no bem-estar da população brasileira como um todo’ — afirma o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper. —Isso é uma retroalimentação, um viés bastante perigoso, principalmente quando a gente pensa na representação do conjunto da população.

‘Votação é consequência’

Na cidade de Várzea, município de 2,7 mil habitantes no Sertão da Paraíba, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), recebeu 253 votos para deputado federal em 2022. No domingo passado, superou em quatro vezes esse desempenho e foi escolhido por 1.067 eleitores, a maior votação da cidade. O avanço se deu apesar de ter registrado, no total do estado, resultado aquém do obtido na eleição passada. Entre uma eleição e outra, contudo a prefeitura de Várzea foi contemplada com R$ 1,73 milhão em emendas destinadas pelo parlamentar, o equivalente a 43% de todos os recursos desse tipo destinados à localidade no período.

A 68 quilômetros dali, em Condado (PB), o cenário foi parecido. Motta obteve 1.834 votos, o que representou 44,7% do total, o maior índice entre os demais candidatos, e 656 a mais do que há quatro anos. Nesse intervalo, enviou R$ 2,08 milhões em emendas ao município, 80% de tudo o que a prefeitura da cidade recebeu nessa modalidade.

Motta admite que seu desempenho nas urnas é fruto das verbas enviadas nos últimos anos e defende a utilização do instrumento por parlamentares para abastecer seus redutos eleitorais. Em sua gestão à frente da Câmara, o valor reservado no Orçamento para este tipo de recurso bateu recorde, com R$ 50,4 bilhões em 2025 e R$ 49,9 bilhões reservados neste ano.

“A votação é consequência dessa minha atuação e revela a importância das emendas parlamentares. São os parlamentares que conhecem as necessidades de sua região”, afirmou Motta, em nota enviada por sua assessoria.

Mas a relação das emendas com o resultado não se restringiu à Câmara. O deputado Arthur Lira (PP-AL) foi o candidato a senador mais votado em três de cada quatro cidades de Alagoas que receberam emendas de sua autoria nos últimos três anos. Em 52 dos 55 municípios contemplados, terminou entre os dois primeiros colocados.

Em Girau do Ponciano (AL), por exemplo, Lira havia recebido 221 votos e ficado em 14º lugar entre os candidatos a deputado em 2022. Nos três anos seguintes, destinou R$ 3,15 milhões apenas em emendas individuais ao município, o equivalente a 78% de toda a verba do tipo recebida pela cidade. No domingo, foi o mais votado, sendo escolhido por 14,6 mil eleitores.

Em nota, Lira disse que os recursos destinados “têm contribuído para ações de custeio da saúde, apoio à agricultura familiar, pavimentação e construção de rodovias, habitação popular e melhoria da infraestrutura urbana, entre outras”.

Os dados mostram ainda que o desempenho s melhora quanto maior é o peso das suas emendas no orçamento municipal. Nos casos em que um único deputado foi responsável por mais de 75% dos recursos à prefeitura, oito de cada dez foram os candidatos mais votados da localidade.

A relação entre voto e emenda também é observada em cidades maiores. Em Marabá, município de 267 mil habitantes no Pará, o deputado Delegado Caveira (PL-PA) saiu do oitavo lugar, com 4,3 mil votos em 2022, para o primeiro, com 35,4 mil neste ano. Entre as duas eleições, enviou R$ 17,9 milhões em emendas individuais para a cidade, o equivalente a 82% de todos os recursos desse tipo recebidos pelo município. Questionado sobre as verbas, não se manifestou.

Campeão na Baixada

Em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, Luciano Vieira (PSDB-RJ) passou do terceiro para o primeiro lugar entre uma eleição e outra, passando de 10,5 mil para 50,4 mil votos. No período, ele foi o principal autor das emendas individuais destinadas ao município, com R$ 51,1 milhões. O parlamentar não comentou.

Para o deputado Danilo Forte (PP-CE), que relatou a Lei de Diretrizes Orçamentárias em 2024, é natural que deputados sejam mais votados em municípios para os quais enviam mais recursos, pois é onde se fazem mais presentes.

— As minhas emendas são em cima das demandas, então é lógico que eu vou enviar para os municípios nos quais eu ando e tenho parceria — disse Forte.

Em 2022, Forte recebeu 74 votos em Uruburetama, no interior do Ceará, o equivalente a 0,54% dos votos válidos para deputado federal no município. No domingo, o cenário foi outro: o parlamentar recebeu 6.065 votos na cidade e alcançou 42,13% da votação local. Entre uma eleição e outra, Uruburetama foi destino de R$ 7,76 milhões em emendas individuais empenhadas pelo parlamentar.

Dimitrius Dantas e Lauriberto Pompeu, os autos, são jornalistas. Publicado originalmente n´O Globo, em 10.10.26

Convicção ou Responsabilidade?

Além de perguntar se algum merece nosso voto, é preciso perguntar se a diferença entre as consequências de suas vitórias é grande o bastante para justificar uma escolha sem adesão

O primeiro turno da eleição presidencial deixou um retrato diferente daquele que os percentuais de votos válidos costumam mostrar. Dos 158,7 milhões de eleitores aptos a votar, Flávio Bolsonaro recebeu 56,1 milhões de votos, equivalentes a 35,3% do eleitorado; Lula, 53,9 milhões, ou 33,9%; e todos os demais candidatos, juntos, 9,3 milhões, ou 5,9%.

Restaram 39,4 milhões de eleitores, quase um quarto do total, que não deram voto válido a nenhum candidato: 6 milhões votaram em branco ou anularam e 33,5 milhões não compareceram às urnas.

Somados aos 9,3 milhões que votaram em outros candidatos, são quase 49 milhões de brasileiros, três em cada dez, que não deram seu voto a nenhum dos dois finalistas. Estou entre eles. Não formamos um bloco: não ter votado nos finalistas não significa rejeitar ambos. Mas imagino que parte desses eleitores se faça agora uma pergunta incômoda: o que fazer quando nenhum dos dois candidatos que chegaram ao segundo turno merece o nosso voto?

Quem vota em branco ou anula, qualquer que seja o motivo, deixa de participar da escolha entre os dois. Seu voto não é considerado válido nem é transferido a ninguém. E os brancos e nulos, mesmo que somados superem a votação do vencedor, não anulam a eleição.

Tenho enfrentado esse dilema desde muito antes da eleição. Pelo lado jurídico, a questão é simples. Pelo lado moral e político, nem tanto.

Para mim, o voto, além de ser um instrumento para escolher quem governará, é também um ato de consciência, pelo qual damos nossa contribuição pessoal para investir alguém da autoridade de governar. Reconheço, porém, que essa concepção não é pacífica.

Para quem entende o voto essencialmente como um instrumento de escolha, o caminho parece claro: diante de duas alternativas, cabe compará-las e escolher a melhor, ou a menos ruim. Mas, se o voto tem também uma dimensão de consciência, o eleitor pode estabelecer limites além dos quais não está disposto a dar sua aprovação a ninguém.

Hannah Arendt desconfiava da doutrina do “mal menor”. Escrevendo em circunstâncias incomparavelmente mais dramáticas do que as de uma eleição democrática, advertia para o risco de aceitarmos sucessivamente aquilo que consideramos errado porque a alternativa nos parece ainda pior. O contexto é outro, mas a pergunta continua perturbadora: existe um ponto em que escolher o menos ruim deixa de ser responsabilidade e passa a ser transigência com as próprias convicções?

Max Weber nos obriga a olhar para o outro lado. Em sua distinção entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade, não propunha que abandonássemos os princípios em nome das consequências. Via as duas como complementares. A convicção estabelece os limites dentro dos quais estamos dispostos a agir; a responsabilidade nos impede de ignorar os efeitos previsíveis de nossas decisões.

Conheço os dois lados por experiência. Em 2022, votei em Lula sem acreditar em seu projeto, porque via no adversário um risco para a democracia, e ali a responsabilidade falou mais alto. As instituições foram postas à prova e resistiram; o governo que ajudei a eleger me decepcionou profundamente, e essa parte da conta também é minha.

Votar em alguém não significa aderir a tudo o que essa pessoa representa. Pode ser apenas o reconhecimento de que as consequências de sua eleição serão preferíveis às da alternativa. A rejeição aos dois, portanto, não dispensa a comparação entre eles. Além de perguntar se algum merece nosso voto, é preciso perguntar se a diferença entre as consequências de suas vitórias é grande o bastante para justificar uma escolha sem adesão.

Mesmo depois de ponderá-las, o eleitor pode concluir que nenhum dos candidatos reúne as condições mínimas para receber seu voto. Nesse caso, votar em branco ou nulo não é necessariamente indiferença ou omissão. Pode ser uma decisão de consciência, tão refletida quanto a de escolher um candidato. A diferença é que, ao recusar ambos, o eleitor deixa aos demais a decisão sobre quem governará o país, sem se eximir das consequências.

A democracia organiza a escolha coletiva, mas não resolve o conflito de consciência de quem vota. Não há resposta que dispense o confronto entre convicção e responsabilidade. É desse confronto, necessariamente individual e solitário, que poderá nascer a melhor decisão sobre qual tecla apertar.

Pedro Parente, o autor, é economista e administrador de empresas. Publicado originalmente n`O Globo, em 10.10.26

O Brasil precisa escolher o seu futuro

Um país que não consegue escolher suas prioridades deixa que a falta de recursos faça por ele

Estamos começando a conhecer as propostas econômicas dos candidatos que disputarão o segundo turno da eleição presidencial. Mais do que promessas, seria importante saber como pretendem conciliar prioridades com recursos escassos.

Uma experiência recente da China oferece uma oportunidade interessante para essa discussão. Segundo a The Economist, a China prepara um programa de investimentos em infraestrutura estimado em US$ 3,7 trilhões nos próximos cinco anos. O objetivo não é simplesmente construir mais estradas ou ferrovias, mas desenvolver redes de energia, logística, telecomunicações e capacidade computacional, preparando a economia para as próximas transformações tecnológicas.

A tese é que o programa poderá beneficiar não apenas a China, mas também o restante do mundo. Ao absorver internamente parte de sua enorme capacidade industrial, o país poderá reduzir a pressão de seus excedentes produtivos sobre os mercados internacionais. No entanto, aqui existe um paradoxo.

A China já investe muito e consome relativamente pouco. Sem aumentar o consumo das famílias, os novos investimentos poderão ampliar ainda mais a capacidade de produção sem criar demanda interna suficiente para absorvê-la. Para isso, seria necessário fortalecer a proteção social, além de outras ações.

O Brasil enfrenta o problema inverso. Temos um mercado consumidor expressivo e uma estrutura abrangente de proteção social, mas investimos pouco. O País fez uma escolha legítima ao construir seu sistema de proteção social. O problema é a dificuldade de financiá-la de maneira sustentável. As despesas obrigatórias, os benefícios tributários e outros compromissos restringem a capacidade de investir. E, quando faltam recursos, os investimentos acabam frequentemente sacrificados.

A China está descobrindo que não basta investir para crescer. O Brasil precisa descobrir que não basta consumir para crescer. A lição chinesa não está no tamanho dos investimentos, mas na definição de prioridades para o futuro.

O próximo governo brasileiro deveria apresentar um programa de longo prazo que combinasse responsabilidade fiscal, preservação da proteção social e recuperação dos investimentos em infraestrutura, educação e produtividade.

Mas existe uma condição incontornável: não é possível financiar todas as prioridades simultaneamente sem saber como pagar a conta. Prometemos mais proteção social, mais investimentos, mais subsídios, menos impostos e equilíbrio fiscal sem explicar como isso é possível.

A pergunta mais importante aos candidatos não é quanto pretendem gastar, mas quais serão suas escolhas. Afinal, um país que não consegue escolher suas prioridades acaba deixando que a falta de recursos escolha por ele. •

Fábio Gallo, o autor, é Professor de Finanças da Fundação Getúlio Vargas. Publicado origialmente n´O Estado de S. Paulo.em 10.10.26.

É preciso reorganizar o Judiciário

Reformar a Justiça exige distribuir autoridade com clareza: dar força às instâncias próprias, reservar às cortes superiores questões sistêmicas e impedir expansões casuísticas de competência

OSupremo Tribunal Federal (STF) atravessa uma crise que se projeta sobre o Judiciário e não se explica por um episódio isolado. Decisões individuais de impacto, exceções que se prolongam, controvérsias sobre juiz natural, conflitos de interesse e barreiras à responsabilização corroeram a legitimidade da Justiça. Parte disso nasce de condutas e cultura institucional. Parte está na arquitetura: o STF reúne funções muito diferentes e concentra poder demais.

Uma reforma deveria começar pela pergunta sobre que função justifica a autoridade de cada instância. Em tese, caberia ao STF guardar a Constituição, e ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), uniformizar o direito federal, enquanto juízes e tribunais ordinários decidem os casos que lhes pertencem. Na prática, contudo, essas funções se sobrepõem. Isso amplia o território de poder do Supremo e torna decisivos mecanismos processuais – relatoria, prevenção, conexão, reclamação – que definem quem julga e com que possibilidade de revisão.

Em 2025, o STJ recebeu mais de meio milhão de processos, e a maior parte de seu estoque estava concentrada em recursos especiais e agravos. Boa parte da energia de um tribunal criado para uniformizar a lei federal foi consumida decidindo se casos individuais podem chegar ao mérito. No STF, a repercussão geral aponta outro caminho: 51 temas julgados em 2025 destravaram mais de 220 mil processos. Uma corte superior pode orientar o sistema sem refazer, um a um, os litígios que chegam de baixo.

Uma agenda coerente daria maior definitividade aos casos nas instâncias próprias e reservaria aos vértices as questões que exigem resposta nacional. A relevância da questão federal, que começou a valer no STJ em setembro, segue essa direção: reservar a corte às questões que ultrapassem o interesse das partes, reforçando sua função de formar precedentes.

O mesmo critério deve alcançar o Supremo. Sua combinação de jurisdição constitucional com competências penais, habeas corpus, reclamações e outras atribuições exige revisão. O foro criminal é a frente mais madura. Se uma função puder ser exercida com segurança por outra instância, com juiz natural, capacidade suficiente e via adequada de revisão, cabe perguntar por que deve permanecer no STF. Uma especialização constitucional mais forte concentraria a Corte em sua missão e reduziria o espaço em que relatorias, cautelares e prevenção ampliam a margem para arbitrariedades.

Redistribuir competências, porém, só funciona se as fronteiras forem impessoais e exigíveis. Sorteio, normas claras de prevenção e conexão, disciplina da reclamação e revisão colegiada ágil de decisões individuais ajudam a impedir que uma nova divisão formal seja desfeita por atalhos processuais. Exceções reais precisam sobreviver sem transformá-las em rotas habituais de acesso ao topo.

A Justiça do Trabalho ou a Eleitoral mostram que especialização traz conhecimento, mas exige fronteiras claras com a Justiça comum. A relação entre Judiciário e política pede disciplina semelhante. Tribunais devem fazer cumprir direitos, deveres e limites constitucionais. Se a Constituição preserva várias soluções legítimas, a escolha dos meios permanece com os Poderes eleitos. O controle judicial conserva força; a resposta judicial deve respeitar o espaço que a Carta manteve aberto.

Há custos em qualquer redesenho. Instâncias inferiores erram, filtros podem barrar questões importantes e, em certos casos, reunir processos ligados evita decisões contraditórias. Por isso, maior definitividade precisa conviver com correção excepcional; toda transferência exige um tribunal de destino capaz de absorvê-la e regras de transição cuidadosas. Reformar bem significa organizar responsabilidades sem empobrecer garantias.

O horizonte é um STF mais concentrado nas questões constitucionais; um STJ mais dedicado ao direito federal relevante; e tribunais ordinários capazes de encerrar com maior frequência os casos que lhes pertencem. Mecanismos excepcionais continuariam disponíveis para violações graves, sem reconstruir uma revisão interminável.

A crise do Supremo revelou o custo de concentrar funções demais no vértice. Reduzir esse custo exige distribuir melhor a autoridade e fazer essa divisão valer.

Editorial d´O Estado de S. Paulo, em 10.10 2026

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Itamaraty corre perigo se Flávio Bolsonaro subir a rampa

Candidato à Presidência nomeará o irmão Eduardo ao cargo de chanceler em um eventual governo

Canibalismo é estranho à diplomacia brasileira

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o irmão Eduardo, ex-deputado federal - Daniel Cole/REUTERS

De todas as propostas de Flávio Bolsonaro, a mais tóxica veio na semana passada: seu irmão Eduardo será o chanceler de seu eventual governo e fará "uma faxina" nos quadros da diplomacia brasileira.]

Pindorama já provou esse veneno. Em 2019, seu pai nomeou o diplomata Ernesto Araújo para o cargo. Sua gestão foi desastrosa mesmo para os padrões do ex-capitão e ele teve que substituí-lo em 2021. Para o lugar foi o embaixador Carlos França, que restabeleceu o estilo da Casa.

Veio a eleição, Bolsonaro foi derrotado e a tradição prevaleceu. França foi mandado para a embaixada no Canadá, onde exerce sua função como um profissional correto. O canibalismo é estranho à vida do Itamaraty.

Em 1964, deposto João Goulart, seu chanceler, Araújo Castro, foi mandado para Atenas. Em 1985, terminada a ditadura, o chanceler Ramiro Guerreiro foi nomeado pelo presidente José Sarney para negociar a dívida externa.

O Brasil tem uma diplomacia respeitada porque não tem lugar para canibais. O Barão do Rio Branco dava-se mal com o Visconde de Cabo Frio, diretor-geral do Ministério. Esperou que morresse, o que se deu em 1907.

Os Bolsonaro deveriam ler "O Mundo em que Vivi", as memórias do embaixador Pio Corrêa (1918-2013), um verdadeiro e destemido conservador.

O Judiciário na semana da Criação

Se o Judiciário brasileiro estivesse presente na semana da criação, ele obrigaria o padre eterno a:

1º dia: Deus criaria a luz, mas manteria nas trevas os processos envolvendo magistrados;

2º dia: Deus criaria o firmamento, separando uma área para os gabinetes e casas dos magistrados;

3º dia: Deus criaria as plantas e os pomares dos magistrados que teriam safras contínuas;

4º dia: Deus criaria os astros, com prioridade para familiares de magistrados e tribunais superiores e seus familiares;

5º dia: Deus encheria os mares com peixes e as águas dos magistrados com salmões;

6º dia: Deus criaria os animais e o ser humano, com imortalidade e juventude eterna para os magistrados;

7º dia: Deus descansaria, com direito a férias retroativas.

Élio Gáspari, Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada". Publicado originalmente na Folha de S. Paulo, ediçãoimpressa, em 07.1026

Redemocratizar o quê, Flávio Bolsonaro?

Favorito na eleição precisa apresentar planos para o ajuste fiscal e o seu ministro da Fazenda

Fala sobre emendas à Constituição para restabelecer democracia não passa de exagero descabido para mudanças que deveriam mirar reforma do STF

Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, durante entrevista coletiva em Brasília (DF) - Sergio Lima - 7.out.26/AFP

É sempre preocupante quando um candidato com chances de chegar à Presidência da República afirma que pretende mudar, sem mais, a Constituição brasileira —sobretudo quando esse candidato tem o histórico político e familiar de Flávio Bolsonaro (PL).

Pior ainda, Flávio associou em discurso a mudança da Carta à intenção de "redemocratizar" o país, o que inevitavelmente suscita a questão sobre o que é democracia para o bolsonarismo, movimento cujo líder, Jair Bolsonaro, louva a ditadura militar e chegou a fazer apologia da tortura.

Nesta quarta (7), o senador pelo Rio viu-se instado a explicar as declarações do dia anterior. Citou exemplos de alterações constitucionais como redução da maioridade penal, reforma do Judiciário, reforma política, revisão da reforma tributária e fim da reeleição para presidente.

Essas são, em tese, propostas legítimas. A anomalia é a tentativa de espalhar a fake news de que o Brasil não vive uma democracia. Espera-se que essa tenha sido somente uma frase de efeito para os militantes.

Afinal, mesmo os abusos inegáveis cometidos pelo Supremo Tribunal Federal, no meio de eleições plenas e livres, estão longe de tornar o país não democrático.

O STF precisa, como reitera este jornal, de mandatos fixos para seus ministros, de um Código de Conduta e de uma redução drástica do alcance do foro especial para autoridades.

Essas e outras medidas visam fortalecer a corte, nunca privá-la de seu papel fundamental no sistema de freios e contrapesos entre os Poderes republicanos.

Agora favorito na corrida presidencial, Flávio também precisa apresentar seus planos econômicos, em especial para as calamitosas contas do governo.

A dívida pública alcançou 82,9% do PIB em agosto, mais de 11 pontos percentuais acima do registrado ao fim de 2022. O saldo do Tesouro neste ano ainda caminha para um déficit, e nessa toada o endividamento crescerá sem parar —impulsionando os juros e sendo por eles impulsionado, num círculo vicioso.

O debate eleitoral foi indigente até aqui. Se Luiz Inácio Lula da Silva (PT) qualificou como "babaquice" a necessidade de obter superávits fiscais, seu oponente evita se comprometer com medidas mais duras, porém necessárias, para o reequilíbrio do Orçamento, com medo de perder votos.

Enquanto auxiliares apresentam planos em encontros restritos com empresários, Flávio desautorizou publicamente a ideia de retirar a indexação de aposentadorias e outros benefícios sociais ao salário mínimo.

Limitou-se a falar em venda de imóveis, corte de ministérios e redução de burocracia, propostas nem de longe suficientes.

Uma boa providência para ao menos indicar a orientação de seu eventual governo seria apontar, desde já, seu nome para a pasta da Fazenda. Mais clareza se impõe com a aproximação do desfecho das eleições.

Editorial da Folha de S. Paulo, ediçãoimpressa, em 07.10.26 (editoriais@grupofolha.com.br)

"Não voto em quem vende o Brasil": milhares de estudantes em manifestação pró-Lula no Rio de Janeiro

Milhares de estudantes do ensino universitário e secundário encheram, na quarta-feira, duas das principais praças do centro do Rio de Janeiro, num protesto pró-Lula da Silva e contra Flávio Bolsonaro, a pouco mais de duas semanas da segunda volta das eleições presidenciais no Brasil.


Convocada pela União Nacional de Estudantes (UNE) e divulgada nas redes sociais, a ação teve início na Candelária e estendeu-se à Cinelândia, praça que acolhe o edifício da Câmara Municipal e que costuma ser palco de manifestações da esquerda. (Crédito: Silvia Izquierdo/Copyright 2026 The AP) 

Os participantes reivindicaram mais recursos para a educação e a gratuitidade do ensino, defendendo, em particular, a manutenção do programa Pé-de-Meia, criado pelo governo de Lula e que se baseia em pagamentos mensais aos estudantes para incentivar a conclusão do secundário nas escolas públicas.

A multidão composta maioritariamente por jovens, mas a que se juntaram também idosos, recordou os cortes orçamentais feitos por Jair Bolsonaro, pai de Flávio, nas universidades federais, nas bolsas de investigação e no programa Farmácia Popular.

Entre as propostas de Flávio Bolsonaro estão reduções significativas da despesa pública, com o senador do Partido Liberal (PL) a elogiar as reformas económicas levadas a cabo pelo presidente da Argentina, Javier Milei.

O Brasil está a braços com uma dívida pública crescente, agravada por taxas de juros elevadas.

Contra a extrema-direita e o alinhamento com os Estados Unidos

Nos cartazes foram feitas referências à necessidade de preservar a soberania e a democracia do Brasil. "Ditadura nunca mais", lia-se num deles.

Os estudantes demonstraram preocupação pela ascensão da extrema-direita e pela proximidade da família Bolsonaro à administração de Donald Trump. "O Brasil não é quintal dos EUA" e "Não voto em quem vende o Brasil" foram outras das mensagens exibidas.

Manifestação pró-Lula e contra Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro, 7 de outubro de 2026

A esquerda brasileira teme que Flávio Bolsonaro promova um alinhamento completo face a Washington dada a afinidade ideológica com Trump.

No ano passado, o presidente norte-americano impôs uma tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros e aplicou sanções a um ministro do Supremo Tribunal Federal. Uma decisão justificada com o julgamento de Jair Bolsonaro, considerado por Trump uma "caça às bruxas".

Vários manifestantes criticaram ainda a gestão da pandemia feita por Jair Bolsonaro, acusado de políticas negacionistas: estima-se que 700 mil brasileiros tenham morrido por Covid-19.

Estão previstas mais manifestações para os próximos dias, a caminho da segunda volta, marcada para 25 de outubro, entre Lula da Silva, o atual presidente que procura um quarto mandato não consecutivo, e Flávio Bolsonaro, que venceu no primeiro turno, embora com uma diferença inferior a 2%, e parte em vantagem na corrida ao Palácio do Planalto.

Além de atos de rua, serão realizados encontros para debater temas como a educação pública, ciência, direitos e a participação estudantil na segunda volta das eleições.

Organização não quer ficar pelo Rio de Janeiro e está a planear mobilizações em Teresina, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, Maceió, Recife e Vitória.

Publicado originalmente por EuroNews, em 08.10.26

Pense por si mesmo para proteger a democracia.

O fundamentalismo tem as respostas antes mesmo de conhecer as perguntas e as soluções antes de compreender os problemas.

Crianças brincam na planície da colônia de Palo Alto, em dezembro de 2024. (Crédito: Áurea do Rosário)

A democracia está em risco, e dois fenômenos ajudam a explicar isso: a crescente insatisfação social e a forma como nos comunicamos atualmente. O primeiro tem razões convincentes. De acordo com o Relatório Global de Desigualdade de 2026 do Laboratório Mundial da Desigualdade, os 10% mais ricos da população mundial detêm 75% da riqueza, enquanto a metade mais pobre detém apenas 2%. Soma-se a isso uma crescente incerteza em relação ao futuro: o Relatório de Desenvolvimento Humano 2021/2022 do PNUD indica que, em 17 economias avançadas, a maioria das pessoas acredita que as crianças que crescem hoje terão uma situação financeira pior do que a de seus pais. Uma sociedade profundamente desigual que perde a fé no futuro oferece terreno fértil para frustração, indignação e ressentimento. O problema para a democracia surge quando essas emoções encontram vazão na política, impulsionando cidadãos insatisfeitos em direção a alternativas radicais e anti-establishment , fechadas ao diálogo e à possibilidade de se chegar a acordos sobre princípios básicos, seja à direita ou à esquerda.

Em relação ao segundo fator de risco, vale ressaltar que, desde 2012, testemunhamos a massificação das mídias sociais, de modo que hoje a maioria das pessoas recebe informações principalmente por meio dessas plataformas. Como demonstra o trabalho do Centro para Tecnologia Humana no Vale do Silício, isso contribuiu para a radicalização de um grande número de pessoas em todas as sociedades democráticas.

As plataformas de redes sociais não são projetadas para oferecer uma visão matizada da realidade, com perspectivas contrastantes e análises imparciais de problemas sociais, mas sim para maximizar a atenção do usuário e mantê-lo conectado o máximo de tempo possível . Isso é alcançado explorando os vieses da racionalidade humana, sendo um exemplo primordial o viés de confirmação: a tendência de preferir informações que confirmam nossas crenças ou convicções em detrimento de informações que as questionam, qualificam ou moderam. Esse viés acaba se tornando decisivo na formação da visão de mundo de uma pessoa e, após vários anos recebendo informações quase que exclusivamente por meio das redes sociais, é bastante provável que isso resulte em uma visão fundamentalista da política.

Fundamentalismo é uma forma de pensar, uma atitude perante a vida, expressa na certeza absoluta de que os indivíduos estão certos e no seu fechamento ao diálogo com posições e pessoas que questionam o que defendem. O fundamentalismo tem as respostas antes mesmo de conhecer as perguntas, e as soluções antes de compreender os problemas. O termo tem sido amplamente utilizado na esfera religiosa , mas estamos agora entrando numa era de fundamentalismos políticos: convicções políticas defendidas com fervor, intolerância e propensão à agressão e à violência. E, como se não bastasse, com uma superficialidade digna da "civilização do espetáculo" descrita por Mario Vargas Llosa, e fortes incentivos para falar apenas com a própria tribo. Trata-se de uma superficialidade flagrante que degrada o debate público a uma competição de slogans apresentados com teatralidade e estratégia, e impede um diálogo profundo sobre o bem comum e os problemas sociais mais importantes, que é a verdadeira missão da política.

Os incentivos são muito poderosos para comunicar mensagens que apelam a emoções fortes, especialmente aquelas que produzem indignação, medo, ódio ou ressentimento . No novo ecossistema da informação, comunicar dessa forma pode ser a diferença entre a vitória e a derrota, e estamos vendo como posições cada vez mais extremistas estão emergindo como vencedoras de eleições. Quando eu estudava ciência política no início deste século, o marketing político recomendava que qualquer pessoa que assessorasse uma campanha deveria moderar o candidato para lhe dar uma chance de vencer. Agora, o oposto é feito: se um assessor tem um candidato muito moderado, ele precisa radicalizá-lo para aumentar sua probabilidade de vitória.

Precisamos proteger a democracia . Esses candidatos vitoriosos, uma vez no poder, corroem-na por dentro, desestabilizando o equilíbrio de poder e, por vezes, até desrespeitando liberdades e direitos fundamentais. Modificam as instituições para acumular mais poder no executivo, perseguem e estigmatizam aqueles que pensam diferente e são até capazes de promover a reeleição com a ideia de que só eles podem salvar o país.

Como cidadãos, devemos manter nossa independência de pensamento e resistir à pressão coletiva que parece levar todos ao nosso redor a um fervor quase religioso a favor ou contra o poder, dependendo de preferências pessoais. Devemos usar nossa liberdade de consciência, expressão e associação para participar responsavelmente da política , dialogar com pessoas que pensam diferente e, em um ambiente deliberadamente pluralista e tolerante, pensar por nós mesmos. Cultivar nosso próprio julgamento independente — um direito fundamental e, ao mesmo tempo, um dever ético — pode ser a melhor maneira de salvaguardar a democracia nestes tempos incertos.

Juan Carlos Mantilla García, o autor, é cientista politico. Pubicado originalmente por EL PAÍS, em 23.09.26.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A Constituição de 1988 e o golpe dentro das regras do jogo

Entre promessas de "tesouraço" e discursos de castração química, Flávio Bolsonaro articula maioria para anular os freios da democracia

Capa da Constituição Federal de 1988- (Senado Federal / Reprodução Metrópoles)

Durante os seus dois mandatos, conquistados nas eleições de 1994 e 1998, críticos políticos argumentavam que, em momentos de desespero econômico ou institucional, o presidente Fernando Henrique Cardoso tentava segurar as crises “no gogó”. Ou seja, utilizava sua articulação intelectual, palestras e pronunciamentos para compensar as dificuldades estruturais de governança.

Por outro lado, o próprio PT e analistas políticos frequentemente apontavam que Lula tinha a capacidade única de fazer o marketing do seu governo sozinho. Ele desarmava tensões sociais diretamente com o público “no gogó”, uma herança direta de seus tempos de liderança sindical, quando discursava para milhares de operários. Vale ressaltar que tanto Fernando Henrique quanto Lula continuam vivos.

Caso se eleja presidente, faltará “gogó” a Flávio Bolsonaro para governar em momentos de crise. Falta-lhe também a experiência de que seus antecessores dispunham, em graus variados, no exercício de cargos públicos, além do carisma que Fernando Collor de Mello, Lula e Jair Bolsonaro sempre tiveram de sobra. Por fim, Itamar Franco, Dilma Rousseff e Michel Temer pontuaram positivamente no quesito  disposição para o trabalho.

Para os eleitores de Flávio, porém, nada disso parece ter alguma importância, nem mesmo o vazio de suas ideias. E assim ele sente-se autorizado a calar-se, a ser vago ou a dizer qualquer coisa sobre o que lhe der na telha, guiado apenas pelo que seus assessores lhe soprem a cada instante em que tenha de abrir a boca.

Então, tome a prometer que cortará despesas tão logo se eleja, e sem apontar onde. É o que ele chama de “tesouraço”, remédio para curar todos os males do país.

Então, tome a prometer a castração química de pedófilos e estupradores, a redução da maioridade penal e a promoção das facções criminosas à categoria de “organizações terroristas”, por exigência do presidente Donald Trump. Então, tome a promessa de que irá “arregaçar com vagabundos”, sem estabelecer que “vagabundos” são esses, nem o que significa “arregaçar”.

Essa postura centralizadora e messiânica faz lembrar o universo da fantasia. “Eu tenho a força” é a frase clássica de transformação do He-Man, um dos heróis mais icônicos dos desenhos animados dos anos 1980 e 1990! A expressão completa que ele diz ao erguer a Espada de Grayskull é: “Pelos poderes de Grayskull… Eu tenho a força!”

Agora, sem sequer ter sido eleito, Flávio imagina que terá essa mesma força mítica para redesenhar o Brasil ao seu gosto. E como? E por quê?

Com a palavra o candidato que pensa que seu destino já está traçado: “O Brasil já me deu um Congresso muito mais à direita do que é hoje, com maioria no Senado para fazer o presidente do Senado, e na Câmara dos Deputados para fazer o presidente da Câmara. Para a gente mudar a Constituição, para a gente redemocratizar este país, para as instituições voltarem a respeitar a Constituição”.

A Constituição Federal de 1988 completou 38 anos de existência no último dia 5 de outubro. Ela já foi emendada 145 vezes, e a responsabilidade de alterá-la cabe exclusivamente ao Congresso Nacional por meio de um rigoroso processo de votação.

Mas, como um eventual governo Flávio supostamente contará com o apoio quase integral do Parlamento para obter a supermaioria necessária para aprovar os projetos de seu interesse, as barreiras institucionais desapareceriam. Assim, as vontades do novo presidente seriam prontamente satisfeitas.

Está em marcha um golpe dentro das regras do jogo que dispensaria o emprego da força bruta. Se ele não for bem-sucedido, não se descarte o uso da força sem disfarce.

Ricardo Noblat, o autor, é Jornalista  - editor do Blog do Noblat. Reproduzido no saite Metropólis, em 07.10.26

Pretensão de Kassio de soltar Bolsonaro é um acinte

Ministro do STF cogita anular os efeitos da justa condenação do ex-presidente por tentativa de golpe.

A via correta para reduzir penas exageradas é o plenário da corte autorizar logo a vigência da lei da dosimetria, aprovada pelo Congresso

Kassio Nunes Marques, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) - Gustavo Moreno - 12.fev.25/Divulgação STF

Causa espécie a notícia de que o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, cogita anular os efeitos da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e permitir a sua soltura, mediante decisão monocrática. Parece que juízes da corte constitucional não compreenderam a intolerância da sociedade com esse padrão de intromissão político-partidária.

A causa é acintosa. Não há dúvidas da participação do então candidato derrotado à reeleição numa trama para subverter o resultado das urnas. Testemunhos e provas asseguram que o Brasil só não viveu a recidiva autoritária pela resistência da cúpula das Forças Armadas, liderada pelo general Freire Gomes, do Exército.

Os acusados percorreram a via canônica do devido processo legal. Denunciados pela Procuradoria-Geral da República, exerceram o contraditório e foram julgados em sessões públicas e regulares. Quatro ministros —Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia, Flávio Dino e Cristiano Zanin— venceram o único dissidente, Luiz Fux, para sentenciar Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão.

Pode-se criticar os julgadores pela opção maximalista no momento de definir os crimes e as penas —exagero que se repetiu com diversos réus, não só com o ex-presidente. Isso, porém, não tisna a legitimidade do processo.

A reação do Congresso Nacional foi sensata. Em vez de embrenhar-se pela via irresponsável da anistia, como queria a franja radical bolsonarista, os parlamentares optaram por aprovar um projeto de lei, o que está em sua alçada exclusiva, que na prática reduz as penas para todos os condenados pela intentona golpista.

Promulgada a lei, entrou em cena o poder de obstrução individual que a lassidão em vigor concede a juízes do Supremo. Desde maio, Alexandre de Moraes está sentado sobre ações que questionam a constitucionalidade da lei, tendo suspendido os seus efeitos. Enquanto isso, condenados que já poderiam estar soltos ou ter obtido encurtamento da pena não podem ser contemplados.

A maneira ortodoxa de desfazer o impasse seria o plenário do STF julgar logo os questionamentos à lei e permitir que ela vigore. Tudo de que o Brasil não precisa agora é a sobreposição de uma nova heterodoxia nesse caso politicamente sensível. Se, com o benefício casuísta a Jair Bolsonaro, Nunes Marques pretende prestar um serviço às forças responsáveis por sua nomeação à corte, deve saber que prestará um enorme desserviço à causa da Justiça.

O antiexemplo de que a punição pelos crimes cometidos contra a Carta de 1988 possa ser anulada vai estimular a repetição dessas ignomínias. A audácia de conceder o perdão pela canetada solitária de um ministro alimentará o moto-perpétuo que investe cada juiz do STF da pretensão de que pode mandar em tudo.

Rasgar a toga para beneficiar um grupo partidário manterá a cúpula da Justiça na penumbra da desmoralização, o que só interessa aos abutres do autoritarismo.

Editorial da Folha de S. Paulo (ediçãoimpressa), em 06.10.26 (editoriais@grupofolha.com.br)

'Desafio de Flávio é ser presidente de direita normal'

Um dos economistas mais respeitados do Brasil, Samuel Pessôa, doutor pela USP e pesquisador associado do FGV Ibre e do BTG Pactual, diz que a dúvida sobre um eventual governo de Flávio Bolsonaro é se ele será "um governo de direita normal".

Samuel Pessôa é doutor pela USP e pesquisador associado do FGV Ibre e do BTG Pactual (Crédito,Arquivo pessoal)

Pessôa define o modelo como a gestão do presidencialismo de coalizão "segundo o livro-texto da Ciência Política", isto é, seguindo os conceitos, teorias e sistemas fundamentais da disciplina com um programa comum e poder repartido entre os partidos aliados.

Flávio, segundo ele, teria "condições privilegiadas" para isso, por pertencer ao mesmo campo político da média do Congresso Nacional. As incógnitas, afirma, são duas: se ele fará essa gestão e quanto do capital político da lua de mel gastará na agenda de libertar o pai.

A entrevista foi feita em duas etapas, na quinta-feira (1º/10), três dias antes do primeiro turno, e nesta terça-feira (6/10), depois de Flávio terminar a votação na frente.

Antes mesmo do primeiro turno, Pessôa já via um "leve favoritismo" de Flávio em um eventual segundo turno, por causa da abstenção, que, segundo ele, "machuca mais" Lula do que o adversário.

Disse também que, se Lula ganhar, "as coisas pioram no mercado", e que a reação levaria o presidente, "um homem pragmático", a desenhar um programa de ajuste fiscal, ainda que moderado.

O economista afirma que o mercado vê "com bons olhos" uma vitória de Flávio, porque avalia que o governo dele tem condições e vontade de promover um ajuste mais rápido nas contas públicas, o que está por trás dos juros "extremamente elevados". Sobre se essa vitória é praticamente irreversível, preferiu não opinar: "Não sou cientista político."

Pessôa também avaliou que "a dinâmica da dívida pública piorou muito" e estimou em R$ 420 bilhões, numa conta feita com um colega, o gasto adicional no quadriênio com a volta da valorização do salário mínimo e a reindexação dos pisos. Defendeu ainda mudanças na escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e disse que os juros mais altos no mundo são uma questão "estrutural".

BBC News Brasil — Por que o mercado reagiu tão bem ao resultado do primeiro turno?

Samuel Pessôa — É óbvio que o mercado vê com bons olhos uma vitória de Flávio sobre Lula. O que está em jogo é que o mercado avalia que um governo Flávio tem condições, tem desejo, tem vontade de promover um ajuste mais rápido nas contas públicas, que é o que está por trás dos juros extremamente elevados com que convivemos todos esses anos.

BBC News Brasil — Se Flávio for eleito, ele tem capacidade de entregar as reformas?

Pessôa — O desafio do Flávio é ser um presidente de direita normal. O que é um presidente de direita normal? É um presidente que fará a gestão do presidencialismo de coalizão brasileiro segundo o livro-texto da Ciência Política. E o Flávio tem condições privilegiadas em relação ao Lula nesse aspecto, porque é do mesmo lado político, da mesma orientação política da média do Congresso Nacional.

Com a eleição dele, teríamos na Presidência da República uma liderança do mesmo campo político do Congresso, e portanto não há dissintonia ideológica entre o Palácio do Planalto e as casas legislativas. Sem essa dissintonia, há mais espaço para cooperação e para negociação de um programa de governo comum entre o Executivo e os partidos.

O Flávio tem 20% da Câmara, o PL foi muito bem votado. Ele teria que chamar o PP, o Republicanos, o União Brasil e juntar MDB e PSD. Com esses partidos, certamente tem dois terços, mais do que o suficiente para aprovar emendas constitucionais, que precisam de três quintos nas duas Casas.

PSD e MDB são um pouco mais distantes, de centro-direita; União Brasil, PP e Republicanos estão mais à direita, mais próximos do PL. Ele deveria construir essa base parlamentar em cima de um programa comum de governo e depois compartilhar poder com os partidos da coalizão, mantendo certa proporcionalidade em função do tamanho de cada um no Congresso. É o que o PT sempre teve muita dificuldade de fazer, e se entende essa dificuldade, porque o PT é de centro-esquerda e a mediana do Congresso é de direita ou centro-direita.

Flávio tem uma oportunidade única de ser um governo de direita normal. As dúvidas que a gente tem com relação a ele são de duas naturezas. A primeira é se ele vai fazer tudo isso que eu falei, ou seja, gerir o nosso presidencialismo de coalizão segundo o livro-texto da Ciência Política. A segunda é quanto do capital político que ele ganhar vai empenhar na agenda mais familiar de libertar o pai.

Se ele ganhar no segundo turno, tomar posse no início de janeiro e indultar o pai, essa decisão vai ser avaliada pelo Supremo, e tem uma chance grande de o Supremo dizer que o indulto presidencial não se aplica a esse tipo de caso.

A pergunta é: dada a resposta do Supremo, o Flávio vai dar a agenda por feita, virar a página e governar o país, ou vai entrar numa briga entre ele, o Legislativo e o Supremo para libertar o pai? Aí gastaria todo o capital político nessa agenda e não governaria o país. Ele vai gastar uma parte substantiva do capital político da lua de mel que vai ter nessa agenda mais familiar, ou vai governar o país e tocar as coisas para a frente? Essas são as dúvidas que a gente tem.

A dúvida é se esse grupo político ligado ao Flávio, que já governou o país no governo Jair Bolsonaro, passou por um aprendizado. Jair Bolsonaro desvalorizou a política tradicional, chamava de "velha política", corrupção etc. Tentou inovar, vinha com a história de que ia negociar com as bancadas, uma bobagem. Ele não negociou com o Congresso. Quando se sentou para negociar, em fevereiro de 2021, quando trocou a direção da Câmara, saiu o Rodrigo Maia, entrou o Arthur Lira. Ele construiu a coalizão muito mal, porque já estava desgastado e numa posição de poder de barganha menor.

Ou seja, a dúvida que tenho com relação ao Flávio é mais de natureza institucional. Houve um aprendizado, por parte desse grupo, de como funciona a relação entre Executivo e Legislativo? Vão gerir o nosso presidencialismo de coalizão mais by the book, sem muita invencionice, fazendo o que o [Michel] Temer fez, o que o FHC fez? Se fizerem isso, o espaço para aprovar reformas e arrumar o país é grande.

A gente vem de um período muito longo de governos de esquerda. Essa longa hegemonia de esquerda gera coisas boas para o país, mas gera desgaste, é natural. Tudo que o país precisa é de um governo de direita normal. A dúvida é se o governo Flávio, se ele ganhar, vai ser um governo de direita normal.

Se for, as perspectivas são realmente muito positivas.

BBC News Brasil — Os nomes que Flávio tem citado para a área econômica são bons para o mercado?

Pessôa — Acho que sim. São pessoas com ótimos currículos, todas elas. O que tem que fazer na economia, todo mundo mais ou menos sabe. O que me preocupa mais no Flávio é a construção política.


Lula e Fernando Haddad durante evento de campanha

Se reeleito, Lula deverá sentar com Fernando Haddad e desenhar algum programa de ajuste, acredita Pessôa. (Crédito,AFP via Getty Images)

BBC News Brasil — Quais são os desafios de um novo governo Lula na economia?

Pessôa — Para Lula, a situação é muito parecida com a de Dilma em 2014-15. Você tem uma economia claramente à plena carga. Estamos revisando o crescimento para baixo: não será o 0,5% de 2014, será de 1,8%. Houve muito impulso fiscal este ano, como houve em 2014, e esse impulso não está gerando grande crescimento, porque a economia já está a plena carga, não tem para onde crescer. Então a coisa vai mais para a pressão inflacionária, o que acaba revisando a curva de juros, em vez de ir para atividade e emprego. Você já está no limite do que a atividade econômica suporta.

O endividamento piorou muito e os juros estão muito altos. Neste quadriênio do terceiro mandato do presidente Lula, a dívida deve crescer ao ritmo de 2,7% a 2,8% do PIB por ano, e vamos saber isso no fim do ano. A previsão que fazemos para o crescimento do endividamento no ano que vem, em relação ao que achamos que será no fim deste ano, é de 4,3% do PIB.

Ou seja, a dinâmica da dívida pública piorou muito. Ela piorou porque a dívida aumentou, porque a renovamos muito com juros mais altos, então o custo de rolagem está maior, e porque o PIB vai crescer menos.

É comum as pessoas dizerem, corretamente, que os economistas erraram seguidas vezes o crescimento da economia.

Mas erramos também a dinâmica da taxa de desemprego. No fim de 2022, o desemprego era de 8,5% [o IBGE registrou 7,9% no trimestre encerrado em dezembro daquele ano], e ninguém imaginava que iria para 5,5%. É bom ter crescido mais e é bom o desemprego estar mais baixo, mas é ruim que o crescimento tenha sido o que os economistas chamam de crescimento extensivo, sem aumento de produtividade.

Isso significa que, no próximo quadriênio, dado que a taxa de desemprego não vai sair de 5,5% para 2,5%, o crescimento é menor. Não tem produtividade, não tem ociosidade no mercado de trabalho. O desemprego nos próximos quatro anos vai aumentar um pouquinho. Então vamos crescer menos.

Minha avaliação é que esse não é um equilíbrio de longo prazo. Tinha-se acabado com a indexação do salário mínimo, que aumentava só pela inflação passada. Tinha-se congelado em termos reais o orçamento de saúde e educação. Pode-se dizer que isso é muito extremo, e a regra poderia ter sido mudada para crescer pela inflação mais o crescimento populacional, garantindo gasto constante per capita.

Mas Lula reindexou tudo na receita corrente líquida. Ele tem os motivos dele, essas políticas atendem aos mais pobres, mas elas pressionam a demanda agregada.

Fizemos uma conta, eu e um colega: a decisão do Lula de voltar com a política de valorização do salário mínimo e de reindexar os pisos constitucionais gerou um gasto adicional de R$ 420 bilhões no quadriênio.

Claro que a dívida aumentou por causa disso, e esse gasto a mais, por mais meritório que seja, pressiona oferta e demanda e gera juros maiores. Então o Lula vai ter que se haver com uma situação fiscal difícil.

BBC News Brasil — Quando essa conta chega de forma mais aguda?

Pessôa — Acho que ainda este ano, porque, havendo a reeleição do presidente Lula, o mercado vai fazer essa conta e acho que haverá uma piora dos mercados. Depois dessa piora, acho que o Lula vai se preocupar.

O Lula é um homem pragmático, não é louco. É um político superexperiente. Ele vai sentar com o Haddad [ex-ministro da Fazenda], penso eu, e com outras pessoas, como o Nelson Barbosa, gente que entende do assunto e está em torno dele, e desenhar algum programa de ajuste, mesmo que moderado, que sustente a economia em melhor equilíbrio por quatro anos.

BBC News Brasil — O senhor acha isso possível?

Pessôa — Acho possível. Mas acho que vai ter que haver uma piora dos mercados para que o Lula se convença de que precisa fazer esse movimento.

BBC News Brasil — A desindexação parece, até agora, quase inegociável para ele. O senhor acha que se chega a esse ponto?

Pessôa — Acho que o que vai se fazer é o seguinte: o indexador do salário mínimo vai cair muito, ele vai aceitar que o valor real do mínimo cresça mais lentamente, e acho que vai aceitar que os pisos constitucionais sejam indexados não na receita corrente líquida, mas no próprio indexador do arcabouço como um todo.

Isso ajuda o ajuste fiscal, mas principalmente dá consistência interna ao arcabouço que ele mesmo aprovou. Você tem um arcabouço que estabelece uma taxa de crescimento para o agregado dos gastos. As duas linhas mais importantes do orçamento público, saúde e educação, têm que crescer com a mesma taxa do agregado. Senão você tem problemas.

É uma medida que dá consistência lógica ao arcabouço, e isso é muito importante, porque resolve um pouco o problema de curto prazo e também melhora as expectativas. Um arcabouço com consistência lógica tem vida mais duradoura, e isso ajuda nas expectativas das pessoas que olham para o longo prazo.

 É preciso reduzir a taxa de crescimento real do gasto primário do governo para que os juros reais da economia brasileira caiam, diz pesquisador do Ibre FGV (Crédito,Bloomberg via Getty Images)

BBC News Brasil — Isso pode ter impacto nos juros?

Pessôa — Acho que sim. A experiência do governo Temer mostra que a formação dos juros no Brasil é a coisa mais careta do mundo. A coisa mais careta do mundo é o balanço entre oferta e procura no mercado de bens e serviços da economia. Sempre que o gasto primário do governo cresce a uma velocidade maior do que o crescimento do potencial da economia, há um problema.

O gasto primário é o quanto o governo está avançando sobre a base produtiva da economia, e o crescimento potencial é a velocidade de crescimento dessa base. Se os dois crescem mais ou menos juntos, o governo não está avançando sobre a base produtiva, está mantendo certa neutralidade.

Se o crescimento do gasto primário é superior ao do PIB potencial, todo ano o setor público avança sobre a base material da economia, e isso pressiona preços e gera juros altos.

Para os juros caírem, não preciso esperar um superávit primário de 2% do PIB. Isso é preciso para a dívida pública começar a cair, é verdade. Mas, antes disso, se eu inverter a dinâmica do gasto público, se eu conseguir rodar alguns anos com o gasto primário real crescendo igual ao PIB potencial, ou um pouquinho menos, os juros já caem. Aí você continua o ajuste fiscal até que haja um superávit suficientemente elevado para reduzir a dívida pública.

BBC News Brasil — Essa queda pode ser sustentada?

Pessôa — Pode, enquanto se mantiver o gasto primário crescendo menos do que o PIB potencial ou igual a ele. Se você reduzir muito a taxa de crescimento do salário mínimo real e indexar os pisos constitucionais no mesmo indexador do arcabouço, consegue reduzir bastante a taxa de crescimento real do gasto primário. E é isso que você precisa para que os juros reais caiam.

BBC News Brasil — Diante de uma piora do mercado, o senhor acha que um governo Lula reeleito poderia chegar a fazer isso?

Pessôa — Acho que sim. Lula é um político muito experiente, conhece o Brasil como poucas pessoas conhecem. Ele sabe a aversão que a sociedade tem à inflação. Inflação mata político.

BBC News Brasil — No começo deste terceiro governo Lula, o senhor dizia que o governo tinha um prognóstico correto da situação. Parece que o governo se desviou desse prognóstico?

Pessôa — De certa forma, não. Escrevi uma coluna, há alguns meses, que diz assim: "Lula termina melhor do que eu imaginava". Dado o impulso fiscal que ele deu no começo, ele está terminando melhor do que eu imaginava.

Há vários motivos, e eu elenco cinco na coluna: o bom desempenho do ministro Fernando Haddad; o bom desempenho de Gabriel Galípolo; a agropecuária, que bombou (no triênio 2023-25, foi o maior crescimento em triênios da história, e comida barata ajuda em qualquer lugar do mundo); Trump, que ajudou, porque a desvalorização do dólar no ano passado gera uma onda desinflacionária no mundo todo; e, finalmente, a economia, que mostrou ter uma flexibilidade maior do que imaginávamos, ao conseguir operar com uma taxa de desemprego substantivamente menor do que se imaginava.

Agora, havia as inconsistências do arcabouço, de que Haddad [então à frente da Fazenda] tinha total conhecimento, e por uma decisão pessoal do Lula essas inconsistências não foram tratadas.

Lula não quis tratar. É uma coisa quase de teimosia de velho, eu acho. O cara pôs na cabeça que o mercado tem preconceito contra ele e não quis tratar dessas questões. Ele vai ter que tratar por mal. O mercado vai piorar, vai vir um surto inflacionário, a popularidade vai cair, ele vai ter que fazer alguma coisa. Acho que ele vai fazer o certo.

Flávio tem condições muito mais fáceis do que o Lula para construir uma coalizão e governar o país', diz Pessôa (Crédito, Senado Federal) 

BBC News Brasil — E a crise que vemos hoje no Supremo? Qual o impacto disso?

Pessôa — Acho que vamos ter que mudar o processo de escolha dos membros do Supremo. Está ficando claro que a crise do Supremo é porque se escolheu mal os membros. Houve escolhas ruins, e elas estão associadas a um processo de politização do Supremo. Depois do Mensalão, os presidentes passaram a escolher, com exceção da Dilma, pessoas que eles consideravam leais a eles, independentemente de currículo e de qualidades. Isso gerou esse problema todo. Então é preciso mudar a forma como se indica.

Uma coisa que precisa é colocar uma idade mínima. O sujeito ser escolhido muito jovem e ficar 30, 40 anos lá é ruim. Acho que o ideal é que vá com mais experiência e que o Supremo seja o fim da carreira. Então 60 anos de idade mínima resolve isso: ele não fica mais do que 15 anos lá.

A outra é que, dado que a escolha virou totalmente política, tem que aumentar o quórum do Senado para aprovar. Acho que o quórum de dois terços, da mesma forma que se precisa de dois terços para impichar, dois terços para aceitar. E aí o presidente tem que indicar alguém que componha com todos os campos políticos.

Isso resolve? Não resolve, porque às vezes o Senado pode estar tão cheio de gente do centrão que vai acabar tendo uma escolha ruim. Talvez a gente pudesse ser um pouco mais específico nas credenciais que o sujeito tem que ter. Escolheu-se gente para o Supremo que não tem nenhuma credencial. Talvez conseguíssemos impedir grandes problemas se apertássemos um pouquinho mais as credenciais requeridas, com idade mínima e uma maioria mais qualificada para aprovar.

Em mudanças institucionais, eu sempre prefiro pouca mudança, processos incrementais. Prefiro ver o status quo, ver qual é o problema e mudar o mínimo possível na direção de atenuar os problemas que aparecem. Não é a minha área, mas, pelo que penso, isso resolve.

BBC News Brasil — Voltando ao governo Lula: no fim de 2024, houve o pacote de corte de gastos, que acabou vindo junto com a isenção do Imposto de Renda. O senhor acha que se perdeu ali uma grande oportunidade de dar um ritmo melhor à condução da economia?

Pessôa — Acho que se perdeu uma oportunidade, mas isso não impede que haja outras.

O que houve ali foi uma arbitragem do presidente e nenhuma reforma institucional. Já havia um ano e meio de funcionamento do arcabouço fiscal; as limitações dele estavam claras, e esperava-se que o presidente fizesse algo mais sólido para dar consistência ao arcabouço. Esperava-se que, pelo menos, o indexador dos pisos constitucionais passasse a ser o mesmo do arcabouço. Isso não é desindexar, não é nada: é só dar consistência interna a algo que eles mesmos propuseram e aprovaram.

O fato de o presidente não querer fazer nada na direção de dar consistência lógica ao arcabouço que ele mesmo propôs e aprovou é um sinal muito ruim do presidente em relação ao problema fiscal. E todo mundo sabe que essa negativa do presidente foi à revelia da opinião do seu ministro [Fernando Haddad, então à frente da Fazenda]. O ministro sabia, e sabe, que esses ajustes precisam ser feitos.

A economista Daniella Marques (centro), ex-presidente da Caixa Econômica Federal, tem sido uma das porta-vozes de Flávio na área da economia. (Crédito,Bloomberg via Getty Images)

BBC News Brasil — O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, estava assumindo e focou nos juros, em parte por credibilidade.

Pessôa — Aquela subida dos juros foi importante para segurar a economia e arrumou muita coisa. Inclusive escrevi uma coluna sobre o Galípolo: uma grata surpresa.

BBC News Brasil — O PT, e o próprio Lula, continuam falando em "juros de agiota". Qual é a saída para baixar os juros?

Pessôa — É esquisito, porque às vezes o PT tem falas que não parecem de quem está na chefia do Executivo nacional por 71,5% dos últimos 24 anos. Não é pouca coisa. Eu já fiz essa conta.

Juros altos são um problema deles, e eles têm que resolver. Inclusive porque, quando o Temer era presidente, os juros eram mais baixos. Não falo do Bolsonaro porque ele enfrentou uma pandemia que nublou tudo. Mas Temer entregou juros mais baixos.

Então juros altos são um problema do Lula, e é ele que tem que resolver. Ele não pode falar como se nunca tivesse sido presidente do país, como se o partido dele não estivesse à frente da Presidência da República há tanto tempo.

BBC News Brasil — Há também a narrativa de que "querem que eu corte gasto, mas não vou cortar gasto social".

Pessôa — Você tem que cortar alguma coisa. Agora, não é cortar o gasto, é cortar a taxa de crescimento do gasto. O gasto social é importante, mas ele tem que crescer numa velocidade compatível com a base material da economia que o sustenta. Não faz sentido querer dar um passo maior do que a perna.

A economia brasileira teve a grande crise de 2014, 2015, 2016, e perdemos uma década: só agora, acho que no ano passado, o PIB per capita ultrapassou o nível de 2013. Então é mais produtivo para a sociedade que haja maior moderação na expansão dos gastos sociais, e que essa moderação garanta a sustentabilidade da política.

Para Pessôa, a gestão de Gabriel Galípolo à frente do Banco Central foi uma 'grata surpresa' (Crédito,Bloomberg via Getty Images)

BBC News Brasil — Nas últimas semanas, vimos pressão sobre as dívidas dos países, inclusive na França, em grande parte por causa de Ormuz e do Irã, mas não só. O senhor vê nisso um impacto preocupante para o Brasil?

Pessôa — Acho preocupante. Quando acabou a pandemia, ela havia gerado um surto inflacionário, e por causa dele os juros subiram no mundo todo, praticamente com exceção da China.

Havia uma dúvida: essa elevação dos juros era só um ciclo para combater o surto inflacionário, depois do qual os juros voltariam aos níveis anteriores à pandemia, ou alguma coisa mudou? Essa dúvida acabou.

Muita coisa aconteceu, e a gente vai para um novo equilíbrio, em que os juros reais são mais altos. Você tem um longo ciclo de investimentos em inteligência artificial nos Estados Unidos, um longo ciclo de investimentos em rearmamento na Europa, além das questões de transição energética.

E tem um problema fiscal muito concentrado na França, que é o segundo maior país da zona do euro, tem as contas públicas desequilibradas e hoje, acho, está pagando sobre a sua dívida um prêmio de risco em relação à dívida alemã maior do que o pago por Itália, Grécia, Espanha e Portugal. Faz tempo que vi isso. Tem também um impasse político, porque o Parlamento não consegue aumentar a carga tributária nem cortar gastos. Parece que a França caminha para uma crise de dívida soberana no horizonte de quatro, cinco anos, e vai ter que fazer ajuste fiscal.

Então você tem juros altos nos Estados Unidos, com todo o processo de investimento em inteligência artificial, o problema do rearmamento na Europa, o impasse político na França, a guerra e os problemas de transição energética no mundo todo.

Você soma tudo isso e tem juros estruturalmente mais altos.

Não é uma questão conjuntural ou cíclica, é estrutural. O Brasil é um país importador de poupança, que poupa pouco. O juro é o preço da poupança. Se os juros vão ficar permanentemente mais caros, nós, que somos importadores de poupança, temos um problema.

Publicado originalmente  por BBC News Brasil, em 07.10.26