quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O problema de Trump com a Europa não é geopolítico, mas psicológico

Ameaçar tomar a Groenlândia à força da Dinamarca gera uma fratura na Otan. Em vez de reforçar a posição americana no Ártico, isso apenas enfraquece

Depois de ameaçar os aliados europeus dos Estados Unidos com força militar e tarifas por causa da Groenlândia, e de um discurso virulento contra os valores da Europa, Donald Trump recuou e diz ter firmado um acordo sobre todo o Ártico “para sempre”, que “deixará todos felizes”.

A explicação para os movimentos aparentemente erráticos de Trump é simples: o problema dele com a Europa não é de ordem geopolítica nem econômica, mas cultural e psicológica.

“Com base em uma reunião muito produtiva que tive com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, formamos a estrutura de um acordo futuro a respeito da Groenlândia e, de fato, de toda a Região Ártica”, escreveu Trump em sua rede social, Truth Social.

Rutte desenvolveu uma habilidade singular e vital para os europeus perante os EUA sob Trump: bajular o presidente americano e lhe fornecer saídas honrosas para as situações nas quais ele mesmo se envolve, seja com relação à Ucrânia, seja agora com a Groenlândia.

Trump aparentemente já foi para Davos com um roteiro pre-estabelecido: atacar a Europa por uma suposta falência cultural e moral, recuar das ameaças militar e comercial e atribuir o “sucesso” de sua estratégia a um acordo com Rutte.

A história não tem consistência, entre outras razões porque o secretário-geral da Otan, que é holandês, não tem mandato para negociar a Groenlândia em nome da Dinamarca. Trump chegou a Davos com a visão de empresário do setor imobiliário, segundo a qual não basta “arrendar” bases militares na Groenlândia: é “psicologicamente” importante ser dono do território.

John Bolton, que foi conselheiro de Segurança Nacional no primeiro governo Trump, embaixador na ONU de George W. Bush, avalia que “ser dono da Groenlândia não é psicologicamente importante para ninguém além do próprio Trump”.

Quando Trump saía da reunião com Rutte, uma repórter da CNN perguntou: “O acordo ainda inclui os Estados Unidos terem a propriedade da Groenlândia?” O presidente hesitou um pouco e respondeu: “É um acordo de longo prazo. É o acordo definitivo de longo prazo. Acho que coloca todo mundo numa posição muito boa, sobretudo em relação a segurança, minerais e tudo mais”. A repórter insistiu: “Por quanto tempo?” A resposta: “Não há limite de tempo. É infinito. É para sempre”.

Diante do alívio do recuo, dificilmente um líder europeu ou canadense vai questionar a consistência do suposto acordo. Até porque a “solução” anunciada, um arranjo de segurança no âmbito da Otan, é o status quo desde pelo menos 1951, o começo da guerra fria, quando foi assinado o Acordo de Defesa entre os Estados Unidos e o Reino da Dinamarca, que concede aos americanos o direito de estabelecer, operar e manter bases na Groenlândia.

Os Estados Unidos chegaram a manter 17 instalações militares na Groenlândia nos anos 60. Elas foram desmanteladas por serem consideradas estrategicamente desnecessárias. Resta apenas uma, a Base Aérea de Thule. Agora, a defesa do Ártico certamente volta a ter importância. As mudanças climáticas causam o degelo do Ártico, que cria novas rotas marítimas.

A Rússia é o país mais bem posicionado para aproveitar essa nova realidade, com seus 42 navios quebra-gelo e entre 40 e 50 instalações militares na região. A China tem apenas 5 navios quebra-gelo mas está construindo mais, e ainda não possui bases militares no Ártico. O governo chinês cunhou o termo Rota da Seda do Ártico, define o país como um “Estado próximo ao Ártico” e mantém presença científica e logística limitada, com estações de pesquisa e acordos de acesso civil em países como Islândia e Noruega. Analistas ocidentais apontam potencial de uso militar, especialmente em comunicações, sensoriamento remoto e navegação.

Os Estados Unidos têm apenas 3 navios quebra-gelo, e também está comissionando outros. E mantêm hoje poucas bases permanentes, mas altamente estratégicas. Além da base na Groenlândia, há instalações importantes no Alasca, como Elmendorf-Richardson, Eielson e Clear Space Force Station, que integram defesa aérea, alerta antimísseis e projeção militar.

Então, a questão estratégica realmente existe, não foi inventada por Trump. O que não faz sentido é a solução por ele buscada até hoje. Ameaçar tomar a Groenlândia à força da Dinamarca gera uma fratura na Otan. Em vez de reforçar a posição americana no Ártico, isso apenas enfraquece.

Quanto ao interesse econômico, a riqueza da Groenlândia em minérios estratégicos, petróleo e gás é igualmente inquestionável. Entretanto, extrair essas riquezas de um território tão inóspito, 80% do qual é coberto permanentemente por gelo, é comercialmente muito menos viável do que outras partes do globo em que elas ainda não foram exploradas.

Em contrapartida, as tarifas de 10% a partir de fevereiro e de 25% a partir de junho que Trump anunciou na segunda-feira para punir os países que enviaram tropas para a Groenlândia em apoio à Dinamarca – Reino Unido, Alemanha, França, Noruega, Suécia, Finlândia e Holanda, os mais prósperos da Europa – teriam grandes consequências econômicas negativas.

Pouco antes do recuo de Trump, o Parlamento Europeu suspendeu a aprovação do acordo comercial acertado em julho com os Estados Unidos. Integrantes da Comissão Europeia haviam anunciado antes que poderiam ser adotadas sanções no valor de US$ 108 bilhões, assim como o bloqueio de importações de bens americanos e controle de exportações de serviços para os EUA, com base no Instrumento Anti-Coerção Econômica.

As tarifas e a reação europeia causaram na terça-feira quedas de 2,06 % no índice S&P, 2,39 % no Nasdaq, que reúne as empresas de tecnologia, e 1,76 % do Dow Jones.

Tudo isso demonstra que a estratégia de Trump não tem sentido econômico.

Entretanto, ameaçar tomar a Groenlândia e enfrentar os aliados europeus responde a dois estímulos fortes em Trump: um cultural e outro psicológico.

A liderança de Trump se baseia na rejeição dos valores das elites intelectuais, no ressentimento das camadas conservadoras e de baixo nível de instrução ao liberalismo e ao globalismo. A Europa é a representação desses valores, a inspiração do pensamento liberal e globalizado nas universidades.

Trump está psicologicamente comprometido com o objetivo de ser reconhecido como o presidente mais consequente da história dos EUA, se não do mundo. Nada pode ser mais consequente do que mudar a geografia.

Ele já citou como seu modelo William McKinley, presidente americano entre 1897 e 1901. McKinley usava as tarifas como forma de ampliar o poder econômico e geopolítico dos Estados Unidos, impulsionando, na visão de Trump, a sua industrialização.

Durante o governo de McKinley, os Estados Unidos conquistaram Porto Rico, Guam e as Filipinas na Guerra Hispano-Americana de 1898. No mesmo ano, os EUA anexaram o Havaí, consolidando a projeção americana no Pacífico.

Esses são os verdadeiros incentivos de Trump. Buscar um racional geopolítico e econômico em seus movimentos sempre levará à surpresa e confusão mental.

Lourival Sant'Anna, o autor deste artigo, é colunista d' O Estado sde S. Paulo e analista de assuntos internacionais. Publicado originalmente em 21.01.26

Eduardo Leite recebe vaias ao lado de Lula e protesta: 'Este é o amor que venceu o medo?'

Governador do PSD teve fala interrompida durante cerimônia do governo federal ligada a programa de investimento na indústria naval
Presidente cumpriu agendas nesta terça-feira (20) em Rio Grande (RS) e, durante discurso, falou sobre 'fábrica de mentiras da direita' e citou Trump


O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), foi vaiado na tarde desta terça-feira (20) quando participava ao lado do presidente Lula (PT) de uma cerimônia de assinaturas de contratos ligados a construção de navios para a Petrobras, em Rio Grande, no sul do estado.

As primeiras vaias ocorreram quando Leite teve o nome mencionado pelo cerimonial e depois no discurso da prefeita Darlene Pereira (PT), enquanto ela agradecia o governador pela parceria. Ao ser chamado ao microfone, as vaias ganharam corpo e Leite teve dificuldade para começar sua fala.

"É um ambiente institucional, não é um comício eleitoral", protestou ele, enquanto era interrompido pelo barulho da plateia, formada principalmente por trabalhadores ligados à estatal e integrantes de movimentos sociais.

"Este é o amor que venceu o medo? Não, né? Vamos respeitar, por favor. Estou aqui cumprindo meu dever institucional. Eu e o presidente fomos eleitos pelo mesmo povo. Somos diferentes. Mas a gente não precisa pensar igual. É importante que pensemos no Rio Grande do Sul, no Brasil, e é isso que fazemos quando trabalhamos de forma coordenada", disse Leite.

Homem de camisa branca fala em púlpito com dois microfones. Fundo colorido com tons de verde, amarelo e vermelho. Pessoa com óculos sentada ao fundo.
Eduardo Leite (PSD), governador do Rio Grande do Sul, é vaiado durante cerimônia do governo federal na cidade de Rio Grande (RS), nesta terça-feira (20) - Reprodução/Canal Gov/YouTube
Ao longo do seu mandato, Leite se manteve no campo da oposição a Lula, mas também não é considerado um aliado de Jair Bolsonaro (PL), como outros governadores do campo da direita.

O PSD de Gilberto Kassab prefere apoiar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para a disputa presidencial em outubro, mas nomes do PSD também se apresentaram como opção, como o governador do Paraná, Ratinho Júnior, e o próprio Leite.

"Na última eleição, o Brasil teve um presidente eleito por 50,8% dos votos, 49% da população votou em outro candidato. Se vocês desejam união e reconstrução, não simplesmente hostilizem quem pensa diferente. Isso não leva a lugar nenhum. A efetiva união que a gente quer para o nosso país envolve respeito, respeito às funções, às pessoas, aos ambientes", continuou Leite, tentando reduzir as vaias.

O governador disse que a postura da plateia leva a "incendiar na outra metade ainda mais ódio, rancor e mágoa, e nós não queremos isso". Ele também pediu atenção do governo federal para a região Sul.

"Fizemos um grande esforço para atrair uma montadora de veículos para o Rio Grande, mas infelizmente há um profundo desequilíbrio federativo que precisa ser corrigido. A Sudene [Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste] oferece 75% de redução de Imposto de Renda", reclamou Leite, em meio a vaias. "Não estou culpando o presidente. É uma distorção histórica", respondeu ele para a plateia.

Último a discursar na cerimônia, Lula não tratou diretamente do episódio das vaias, mas mencionou o governador por duas vezes, em tom amistoso.

Pré-candidato à reeleição, Lula aproveitou a plateia entusiasmada —que em determinado momento gritou "sem anistia"— e deu um tom eleitoral para o discurso. O presidente tem repetido que está preocupado com "a fábrica de mentiras" que circula nos celulares e passou a pedir que as pessoas enfrentem o problema. "Denuncie ou delete, não passe para frente."

"A direita tem uma indústria de mentir. Poderosíssima. Na campanha do [Donald] Trump, eles fizeram 2 milhões de mensagens contra a adversária dele, na última semana. Vai ser assim a campanha", disse o petista.

O presidente desembarcou pela manhã no Rio Grande do Sul e teve duas agendas na cidade de Rio Grande. A primeira foi uma cerimônia de entregas de moradias populares. Em seguida, a comitiva do petista seguiu para o Polo Naval, para uma visita ao Estaleiro Rio Grande, administrado pela Ecovix.

No Polo Naval, o presidente participou da cerimônia de assinatura de um contrato entre a Ecovix e a Transpetro, subsidiária da Petrobras, para a construção de cinco navios gaseiros no Estaleiro Rio Grande, além de outras 36 embarcações (18 empurradores e 18 barcaças).

Ao todo, o investimento é de R$ 2,8 bilhões e integra o programa Mar Aberto, de renovação da frota da Petrobras.

Durante a agenda, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, também confirmou que a estatal vai investir R$ 6 bilhões na transformação da Refinaria Riograndense na primeira biorrefinaria do país, com previsão de início das operações no segundo semestre deste ano.

No início da tarde, Lula participou da cerimônia de entrega do empreendimento Junção, um conjunto habitacional do programa Minha Casa, Minha Vida. Iniciado em 2016, o Junção reúne 1.276 unidades habitacionais e deve beneficiar mais de 5.000 moradores, segundo estimativa da Prefeitura de Rio Grande.

José Bruno Bratti - Rio Grande (RS) e Catarina Scortecci (Curitiba (PR). Publicado originalmente na Folha de S. Paulo, edição impressa, em 20.01.26, às 19h59.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Trump, 2026: Quem pode se opor ao presidente dos EUA?

Os protestos estão aumentando, juízes estão tentando bloquear a agenda da Casa Branca e a popularidade dos republicanos não está se recuperando. As eleições de meio de mandato em novembro serão cruciais para avaliar a resiliência dos democratas.

Uma pessoa se envolve em uma bandeira dos Estados Unidos durante um protesto contra o ICE (polícia de imigração) em Minneapolis na última sexta-feira. (Crédito: OLGA FEDOROVA EFE)

Exatamente um ano atrás, nos dias que antecederam a segunda posse de Donald Trump, uma frente fria que obrigou a cerimônia a ser realizada em um local fechado mergulhou Washington em um clima sombrio. Uma pergunta circulava por aquela cidade predominantemente democrata, agora repleta de apoiadores do MAGA ( Make America Great Again , o slogan de Trump), novos moradores que chegaram com a mudança de governo e bilionários ansiosos para fazer negócios ali: onde estaria a resistência ao presidente dos Estados Unidos desta vez?

Afinal, uma forte mobilização cidadã saudou Trump no início de seu primeiro mandato (2017-2021). No alvorecer de seu segundo mandato, e após 10 anos em que ativistas, celebridades de Hollywood, políticos democratas, a mídia tradicional e o próprio establishment tentaram, sem sucesso, impedi-lo, parecia que metade dos Estados Unidos havia decidido desistir diante da vitória inequívoca que ele havia conquistado nas urnas.

Doze meses após a posse, a resistência a Trump está um pouco mais viva. E ele enfrenta um ano crucial, no qual as eleições de meio de mandato, em novembro próximo, dividirão sua presidência em duas: perder o Congresso, que ele controla atualmente, complicaria muito a segunda metade de seu mandato. Enquanto isso, juízes federais em todo o país continuam a rejeitar e, às vezes, até mesmo bloquear sua agenda nos tribunais; alguns congressistas republicanos se opõem a ele com efeitos mais irritantes do que decisivos; e os democratas recuperam alguma esperança com vislumbres como o do novo prefeito de Nova York, o socialista Zohran Mamdani.

Trump toma posse novamente oito anos depois. E a resistência contra ele?

Os protestos também estão se intensificando nas ruas. Esta semana, emissoras de televisão por todos os Estados Unidos transmitiram incessantemente imagens dos protestos em Minneapolis contra o envio de agentes de imigração do ICE, um dos quais matou a tiros Renée Good, uma cidadã americana. Em uma sequência que vem crescendo constantemente , protestos semelhantes ocorreram anteriormente em Los Angeles, Chicago e Portland. Todas essas são cidades com tendência democrata para as quais o governo enviou a Guarda Nacional, assim como fez em Washington, D.C., onde os agentes ainda patrulham as ruas.

Soldados da Guarda Nacional em frente ao Centro de Detenção Federal de Los Angeles em junho passado. (CONTATO via Europa Press)

Juízes federais em todas essas jurisdições se opuseram às decisões do governo de mobilizar milhares de agentes, em mais uma demonstração de que a resistência a Trump, como previsto desde o início, desta vez também (ou principalmente) ocorre nos tribunais. Nestes 12 meses, Trump assinou 228 ordens executivas e decretos sem a aprovação do Congresso, três a mais do que nos seus quatro anos anteriores, e muitos deles acabaram nos tribunais. Esta semana, havia 253 processos judiciais ativos contra ações governamentais em tribunais locais, estaduais e federais, de acordo com cálculos da organização independente Lawfare. E não há indícios de que essa disputa vá diminuir.

A barreira legal às tentativas de Trump de expandir o poder executivo, no entanto, encontra uma brecha em seu ponto mais alto. A Suprema Corte, com sua maioria conservadora de seis juízes — três dos quais foram nomeados pelo republicano durante seu primeiro mandato — demonstrou lealdade inabalável ao presidente dos EUA durante o último período judicial. Eles decidiram a seu favor 19 vezes, com decisões emitidas sob procedimentos acelerados.

E quanto ao Poder Legislativo? Este primeiro ano do retorno de Trump à Casa Branca foi, especialmente em seu primeiro semestre, marcado pela paralisia do Congresso. Em seu primeiro mandato, o Partido Republicano se rebelou contra algumas de suas decisões. Neste segundo mandato, e após uma década de infiltração de apoiadores do MAGA em suas fileiras, o partido tem se curvado repetidamente aos desejos da Casa Branca.

É verdade que os democratas, que não controlam nenhuma das casas legislativas, têm pouca margem de manobra. Também é verdade que, abalados pela derrota eleitoral, desorientados e sem liderança, levaram meses para entrar em ação, apesar dos apelos do influente estrategista James Carville para implementar o que ele chamou de "a manobra política mais ousada da história do partido". Essa manobra, argumentava ele, poderia ser resumida da seguinte forma: "Recuar e fingir de morto, deixar os republicanos desmoronarem sob o próprio peso".

No outono, os senadores democratas forçaram a paralisação governamental mais longa da história, que durou 43 dias e atrasou a aprovação de uma lei que obrigaria o Departamento de Justiça a divulgar os documentos do milionário pedófilo Jeffrey Epstein que estão em sua posse.

Quando a moção foi finalmente colocada em votação, a decisão foi quase unânime; apenas um congressista conservador votou contra. O caso Epstein, envolvendo um amigo de longa data de Trump, também foi o motivo do rompimento do presidente com um grupo de congressistas dissidentes que, nos últimos meses, haviam se juntado à resistência contra ele em questões como as operações militares extrajudiciais contra supostos barcos de narcotráfico no Caribe. Trump os insulta repetidamente nas redes sociais e chegou a forçar a renúncia de uma delas, a ex-representante MAGA Marjorie Taylor Greene, que havia se tornado um rosto inesperado da oposição.

O líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, juntamente com Katherine Clark e Pete Aguilar, em 8 de janeiro no Capitólio. (Crédito: Evelyn Hockstein - REUTERS)

Antes disso, a paralisação do governo foi uma manobra arriscada para os democratas; o congelamento do financiamento afeta serviços essenciais para os cidadãos e deixa centenas de milhares de funcionários públicos sem salário. Mas valeu a pena para o partido, que se apresentou aos seus apoiadores, pela primeira vez desde o desastre eleitoral de Kamala Harris, como uma organização pronta para lutar. A paralisação terminou quando oito senadores da minoria concordaram com as condições para a reabertura do financiamento. Mas não por muito tempo: o próximo teste será no final de janeiro, e outro impasse não está descartado como tática de pressão para salvar certos benefícios de saúde.

Durante aqueles meses de inação democrata, seus estrategistas imploraram por paciência, mantendo os olhos voltados para as eleições de meio de mandato , nas quais toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado estarão em disputa. Bem, esse momento está agora mais próximo. Elas serão realizadas em 3 de novembro, a data mais importante do calendário de 2026, juntamente com 4 de julho, o 250º aniversário da independência dos Estados Unidos.

Presume-se amplamente que Trump, que afirmou esta semana que seria melhor se as eleições não fossem realizadas (embora a Casa Branca tenha esclarecido posteriormente que ele estava "brincando"), fará todo o possível para influenciar os resultados, redesenhando os limites dos distritos eleitorais, nomeando negacionistas das eleições entre os funcionários responsáveis ​​pela contagem dos votos e questionando a legitimidade do voto por correio. Mesmo assim, muitos analistas acreditam ser possível, a dez meses das eleições, que os democratas recuperem a maioria na Câmara dos Representantes, onde 435 cadeiras estão em disputa, mas apenas cerca de 60 são consideradas eleições competitivas.

Vantagem de quatro pontos

Os índices de aprovação de Trump estão baixos há mais de 300 dias. E, de acordo com uma pesquisa do Wall Street Journal divulgada neste sábado, que dá aos democratas uma vantagem de quatro pontos nas intenções de voto, a maioria dos americanos está insatisfeita com a situação da economia, considera o governo incapaz de conter o custo de vida e acredita que a Casa Branca está muito preocupada com a política externa.

A análise é complementada pelo fato de que as eleições de meio de mandato serão um evento com um número incomum de congressistas se aposentando, mais entre as fileiras republicanas (25) do que entre as democratas (21), o que aumenta a incerteza para o grupo conservador, que tem uma maioria apertada (218-213).

As eleições de meio de mandato costumam ser más notícias para o partido no poder, embora, de acordo com a pesquisa do Wall Street Journal , a perspectiva nesta época do ano fosse melhor para os democratas em 2018 do que é agora. Naquela época, Trump enfrentou seu primeiro teste eleitoral e fracassou de forma espetacular.

Se a Câmara dos Representantes mudasse de maioria, os democratas teriam mais poder para bloquear sua agenda, exceto pela parte que ele aprova por meio de decretos executivos. Eles também poderiam orquestrar um impeachment fraudulento para removê-lo do cargo, mas isso seria arriscado. Seria a terceira tentativa, e as duas anteriores, longe de derrubar Trump, apenas o fortaleceram.

Decidir se deve apostar tudo ou não é um dilema, mas não é o único que a esquerda americana enfrenta. Ela recebeu uma dose de otimismo em novembro passado, após uma temporada sombria, com vitórias eleitorais retumbantes em Nova Jersey, Virgínia e, sobretudo, na eleição para prefeito de Nova York. Uma estrela nasceu naquela cidade: o socialista Zohran Mamdani. Os democratas acompanharão de perto seu sucesso ou fracasso, já que ainda não têm um líder claro para 2028, e a ascensão de Mamdani evidenciou o conflito entre duas facções dentro do partido: moderados e progressistas.

O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, um democrata, em um comício na última sexta-feira.(Crédito: Anadolu via Getty Images)

Parece que todos aprenderam algo com o prefeito de Nova York : parte do seu sucesso derivou do foco no custo de vida, essa "acessibilidade" que ele até incorporou à retórica de Trump. Será mais difícil aprender com seu extraordinário talento para usar as redes sociais. Para se conectar com o eleitorado jovem, predominantemente masculino, que abraçou o MAGA na última eleição, figuras proeminentes como o governador da Califórnia, Gavin Newsom, um democrata, adotaram a tática de partir para o ataque e responder a Trump nas redes sociais com o mesmo veneno, usando piadas de mau gosto, memes e ataques pessoais. Resta saber se essa estratégia servirá a algum propósito além de canalizar a frustração de enfrentar um presidente que muitas vezes parece imparável.

Newsom é indiscutivelmente o mais bem posicionado para ser o candidato de seu partido na próxima eleição presidencial. Mas sua mudança de estilo, ou as vitórias do último outono, não são suficientes para declarar o fim da crise do partido, de acordo com David Plouffe, um estrategista democrata veterano que se tornou uma das vozes mais críticas do establishment que permitiu que Joe Biden se candidatasse novamente e foi um dos líderes da breve campanha de Harris.

“É muito mais fácil acreditar que a tempestade passou, que a profunda impopularidade de Trump e do movimento MAGA, e o caos que eles estão gerando, serão suficientes para colocar o barco nos trilhos”, escreve Plouffe no The New York Times. “Se ao menos fosse esse o caso. Mas para vencer eleições em territórios politicamente implacáveis, até mesmo hostis, o partido terá que reformular sua imagem desgastada e sua plataforma ultrapassada, promovendo novas figuras e novos líderes que prometam traçar um rumo em que um número suficiente de eleitores confie.”

Essa é a teoria. Na prática, quase certamente será muito mais difícil.

Iker Seisdedos, o autor deste artigo, é o correspondente-chefe do EL PAÍS nos EUA. Formado em Direito Econômico pela Universidade de Deusto e com mestrado em Jornalismo pela Universidade Autônoma de Madri (UAM) e pelo EL PAÍS, trabalha no jornal desde 2004, quase sempre na seção de cultura. Depois de trabalhar na seção de viagens, na seção Temptations e no El País Semanal, foi editor-chefe das seções de domingo, Ideias, Cultura e Babelia. Publicado originalmente em 20.01.26

O líder do golpe ataca novamente.

Nos Estados Unidos, há poucos representantes públicos e vozes que ousam confrontar o poder abusivo de seu presidente

O presidente dos EUA, Donald Trump, visita uma fábrica da Ford em Dearborn, Michigan, no dia 13. (Crédito: Evelyn Hockstein - REUTERS

Era paradoxal. O presidente dos EUA, encorajado pelo sequestro bem-sucedido do ditador Maduro em seu próprio reduto em Caracas, ameaçou atacar o Irã caso seus líderes abrissem fogo contra os participantes dos protestos contra a ditadura islâmica. O número de manifestantes mortos varia de 3.000 a 10.000, sem uma contagem rigorosa em um país desconectado da internet e sob um apagão midiático. Enquanto isso, as forças da desordem que Trump mobilizou em diversas cidades democratas para perseguir imigrantes e semear o caos civil assassinaram uma mulher à queima-roupa durante uma manifestação pacífica. Pode-se começar a considerar que Trump também se armou com uma guarda revolucionária, à semelhança do Irã, para contornar os mínimos controles sobre o monopólio estatal da violência. Às mortes sob custódia do ICE — aquele grupo mal treinado, hiperviolento e mascarado — somam-se agora os tiroteios nas ruas. Enquanto os alvos eram imigrantes anônimos, pessoas sem a menor proteção legal, indefesas e vulneráveis ​​diante de um sistema perverso que as explora e despreza, nada acontecia. Mas a gravação de uma mulher, mãe de três filhos pequenos, sendo baleada na cabeça por um policial que não corria nenhum perigo com a manobra que realizava ao volante de seu SUV, mudou tudo. Talvez alguns estejam começando a perceber que não estamos mais no campo da especulação. O governo dos Estados Unidos adotou posturas de extrema violência.

No Irã , as mulheres travam há anos uma luta lenta e extremamente custosa para derrubar o regime religioso que as oprime. Sua luta é uma batalha interna, corajosa e admirável. Do lado de fora, elas sempre foram abandonadas. No capítulo mais recente, a fanfarronice de Trump e o absurdo protagonismo do herdeiro da antiga monarquia no exílio só serviram para justificar a repressão interna. Nos Estados Unidos, por ora, há poucas figuras públicas e vozes que ousam confrontar o poder abusivo de seu presidente. O medo de ser destruído por essa máquina de propaganda, zombaria e autoelogio é enorme. Isso é compreensível em um país cujo sistema de consumo penaliza qualquer indivíduo que se manifeste. As redes sociais ampliaram o poder da inquisição, e aqueles de nós que cresceram admirando quem confrontava os discursos e dogmas dominantes do poder com inteligência afiada agora percebem como ninguém quer ser pisoteado em praça pública por uma turba agressiva e subjugadora.

Na Europa, começam a surgir vozes clamando por alguma forma de resistência contra esse aliado histórico que caiu nas mãos do ultrarradicalismo. O problema é que a própria Europa abriga partidos cada vez mais numerosos que dançam conforme a música desse discurso que glorifica a força como a única solução para os complexos problemas do mundo. Desde os primórdios da humanidade, sabemos que seres agressivos atacam, seres de luz iluminam e seres brutais brutalizam. Portanto, não deveria nos surpreender que um golpista como Trump se dedique a golpes. Sua especialidade são golpes dramáticos, rápidos, caprichosos, oscilantes, constantes e erráticos. Ele não sabe fazer mais nada. Falta-lhe profundidade, estrutura reflexiva e bússola moral. Colocar-se em suas mãos, como fizeram os cidadãos dos Estados Unidos, é ficar atolado nisso por décadas. Que assim seja. A morte de manifestantes é a linha divisória entre a ditadura e a liberdade.

David Trueba, o autor deste artigo, é colunista do EL PAÍS, diário global editado em Madrid / Reino de Espanha. Publicado originalmente em 20.01.26

A tecnologia pode fazer cérebro funcionar melhor?

Você tem uma longa lista de compras que precisa recordar? Ou os nomes dos convidados para uma reunião importante?

Imagem de um cérebro humano suspenso sobre um fundo claro com eletrodos coloridos (Crédito,Getty Images)

Existem truques de memória que usamos para treinar o cérebro, para que ele funcione melhor. É o chamado método "software", para melhorar nossa capacidade mental.

Mas será que poderíamos também usar o hardware, ou seja, dispositivos que fornecem impulsos elétricos ao cérebro?

Até o momento, esta tecnologia foi desenvolvida para ajudar a restaurar as funções cerebrais em certas condições neurológicas.

Um exemplo é a estimulação cerebral profunda (ECP), uma técnica complexa, utilizada por muitos anos para tratar de pessoas com transtornos de movimento, como o mal de Parkinson.

Marca-passo para o cérebro

A professora Francesca Morgante, da Universidade City St George de Londres, observou o impacto da ECP em seus pacientes.

"Ela é considerada para pessoas cuja medicação não consegue controlar os sintomas", declarou a professora ao programa de rádio CrowdScience, do Serviço Mundial da BBC.

A estimulação cerebral profunda implica uma operação cirúrgica para implantar cabos no cérebro, conectados a um gerador de impulsos que, geralmente, é inserido na parte superior do peito (Crédito: Getty Images)

O mal de Parkinson causa a morte das células produtoras do mensageiro químico dopamina.

A dopamina é necessária para sinalização nas partes do cérebro que controlam os movimentos corporais. Sem dopamina em quantidade suficiente, as pessoas que sofrem do mal de Parkinson podem ter sintomas como tremores, rigidez e lentidão de movimentos.

A doença piora com o tempo e, até o momento, não tem cura.

A ECP consiste em implantar cirurgicamente um gerador de pulsos embaixo da pele, geralmente pouco abaixo da clavícula. Ele é conectado a cabos ou eletrodos que são inseridos nas regiões do cérebro afetadas, para estimulá-las com uma pequena corrente elétrica.

O dispositivo age como um marca-passo do cérebro, segundo Morgante, ajudando a restabelecer a sinalização cerebral normal.

Não há uma solução única para todos

A estimulação cerebral profunda pode ajudar a aliviar alguns dos sintomas de Parkinson, mas nem sempre é eficaz.

As formas em que a vasta rede de neurônios envia sinais elétricos entre si são complexas e, até o momento, não são totalmente compreendidas.

"Existem muito mais sintomas do que apenas tremores e problemas de mobilidade", explica Lucia Ricciard, também da Universidade City St George de Londres.

"Eles incluem sintomas como depressão, ansiedade, falta de motivação, problemas de memória e dificuldades para dormir."

Ela destaca que os estudos indicam que a estimulação cerebral profunda também pode ajudar a aliviar alguns destes sintomas, como a depressão e a ansiedade, mas é preciso realizar mais pesquisas a respeito.

Em pacientes com mal de Parkinson, as células nervosas da região do cérebro conhecida como substância negra morrem. À esquerda, substância negra saudável (laranja). À direita, substância negra degenerada (amarela)  (Crédito,Getty Images)

Existem também considerações individuais. Cada cérebro é altamente complexo e único e, por isso, não existe uma solução única que sirva para todos.

Os cabos implantados e empregados na ECP consistem de diversos segmentos independentes, conectados a diferentes neurônios. Os especialistas precisam determinar quais segmentos devem ser estimulados para conseguir maior impacto sobre os sintomas do paciente.

"Para tomar a decisão de qual segmento ativar e com qual parâmetro em termos de frequência, amplitude e pulso, existem muitos aspectos que devem ser considerados", afirma Ricciard.

Este processo de calibragem personalizada, tradicionalmente realizado por meio de tentativa e erro, vem melhorando constantemente, ainda mais agora que a inteligência artificial pode sugerir quais combinações são as melhores para cada cérebro.

Ainda não está muito claro se a estimulação cerebral serve para melhorar outras funções, como a memória. Mas este ponto, atualmente, é objeto de investigação.

A memória humana está concentrada em uma região do cérebro chamada hipocampo.

Ela recebe informações de outras partes do cérebro, como o odor, o som e a imagem de uma experiência, e a converte em um código que é armazenado a curto ou longo prazo, explica o especialista em memória Robert Hampson, da Universidade Wake Forest, nos Estados Unidos.

Há vários anos, sua equipe realizou experimentos com pequenos roedores, que receberam uma tarefa que exigia o uso da memória, e observou o surgimento de padrões elétricos específicos antes que o animal decidisse o que fazer.

"Se o rato de laboratório girar para a esquerda, obtenho um padrão que chamo de 'esquerda'. Se ele girar para a direita, obtenho um padrão que chamo de 'direita'", explica Hampson.

"Descobrimos que existem padrões associados ao funcionamento correto da memória e suas possíveis falhas."

 

Os circuitos da memória no cérebro foram estudados em ratos de laboratório ((Crédito: Fotografia via Getty Images)

Hampson começou a se perguntar se seria possível influenciar esses padrões e "reparar a memória quando ela falhar".

Sua equipe foi pioneira nos primeiros testes em seres humanos de um dispositivo denominado prótese neural hipocampal, descrito por Hampson como "mais parecido com uma muleta ou gesso" do que com uma prótese.

De forma similar à ECP, ele exige a implantação cirúrgica de diversos eletrodos, estes dirigidos ao hipocampo.

A tecnologia ainda não está totalmente desenvolvida. Por isso, no lugar da implantação de um marca-passo, os eletrodos são atualmente conectados a um grande computador externo, que pode enviar e receber sinais do cérebro.

"Tentamos restaurar a função quando ela fica debilitada ou se perde", detalhou Hampson.

Em testes com pessoas com epilepsia, os resultados são promissores.

"Observamos uma melhora de 25% a 35% da capacidade de reter informações por cerca de uma a 24 horas. Isso foi observado em pacientes que apresentavam maiores problemas de memória no início do teste."

Estão sendo atualmente testados ou empregados diferentes métodos de estimulação cerebral em uma série de condições neurológicas, como a depressão e a epilepsia ((Crédito,Getty Images)

Possibilidades para o futuro

Esta tecnologia, algum dia, poderá ajudar pessoas que sofrem de problemas de memória como Alzheimer, segundo Robert Hampson.

Mas será que ela poderia melhorar o cérebro de qualquer pessoa, não só das que sofrem de doenças degenerativas?

Hampson acredita que ainda temos muito o que aprender sobre os motivos que levam a memória de algumas pessoas a funcionar melhor do que outras.

"Não temos necessariamente informações suficientes para dizer 'podemos melhorar o cérebro além do normal'", segundo ele.

E é claro que existem obstáculos éticos a considerar, além dos riscos da própria cirurgia cerebral.

"A memória é a essência que nos define e a única coisa que não queremos é alterá-la", conclui Hampson.

Publicado originalmente pelo Serviço Mundial da BBC, em 17.01.26

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Pilar del Río: “A democracia não está em crise, as sociedades é que estão.”

Há mais de uma década, a jornalista e tradutora preside a Fundação José Saramago, em Portugal

Pilar del Río no Museu Reina Sofía, em Madrid, Espanha, em 5 de junho de 2023. (Foto: Borja B. Hojas  - Getty Images)

Pilar del Río chega à Biblioteca Nacional da Espanha numa manhã quente de outubro com passos tranquilos e um sorriso genuíno. Fala devagar, mas com uma convicção luminosa. Jornalista, tradutora e presidente da Fundação José Saramago , dedicou mais de uma década a salvaguardar o legado do laureado português com o Nobel e, simultaneamente, a defender a sua própria causa: a defesa das palavras, da cultura e da empatia como forças motrizes de uma sociedade mais justa.

Logo no início da conversa, ele faz uma pausa para expressar sua gratidão pelo projeto Ibero-América na Democracia , promovido pela Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI). “Fortalecer a democracia é um processo contínuo, porque a democracia sempre pode ser aprimorada. Parabéns por promover um espaço que incentiva o pensamento coletivo”, diz ele. Assim começa uma conversa que, mais do que uma entrevista, se assemelha a um diálogo que nos convida a refletir sobre a humanidade.

Pergunta: Obrigada, Pilar. Antes de abordarmos alguns dos tópicos que vamos discutir, gostaria de lhe perguntar: como você definiria Pilar del Río em poucas palavras?

Resposta: Essa é uma pergunta difícil de responder. Em um documento, eu poderia colocar o que consta no meu passaporte: jornalista, 75 anos, nascido em Sevilha, com nacionalidade portuguesa. Mas isso não diz muita coisa. Talvez esclarecesse um pouco mais se eu acrescentasse que tenho um filho e sou o mais velho de quinze irmãos. Que nasci numa época em que o mais importante, para escapar da tristeza, era servir aos outros. É assim que me defino: uma pessoa a serviço. Trabalhei como jornalista, sempre comprometido com o jornalismo. Agora, numa instituição cultural, preservo a memória e o legado de José Saramago . Mas tudo isso deriva da mesma vocação: servir. Se não se trata de servir, o projeto não me interessa.

P: Eu queria falar sobre esse legado. Você tem um papel duplo: jornalista, escritora, tradutora e também guardiã da memória de José Saramago, daquele "continue comigo" que ele lhe pediu no documentário José e Pilar …

R: “Que responsabilidade! E que coisa cruel de se fazer”, ele lhe dizia. Nesse mesmo documentário, com seu humor característico, ele afirma: “Não gostaria de estar no lugar de Pilar quando eu morrer”. “Pois bem, não morra”, ela respondia. Saramago era uma personalidade muito forte, com uma enorme capacidade de observação. Ele analisava seu tempo e refletia sobre o futuro. Era um intelectual e um humanista . Dar continuidade ao seu legado é muito difícil para uma pessoa ou mesmo para uma instituição. Tentamos nos manter à tona, mas não é fácil acompanhar esse ritmo, essa postura ética e humana de um ser para quem nada nem ninguém era indiferente.

P: Minha pergunta era talvez mais pessoal: onde começa Pilar e onde termina José? Ou é algo indivisível?

R: José Saramago é o autor da sua obra, e isso é claro. Pilar é simplesmente mais uma pessoa que incentiva o conhecimento dessa obra e a preservação dos conceitos humanos que ele defendeu na sociedade e nas instituições. Digamos que, se ele foi o pai e a mãe de uma certa maneira de estar no mundo, eu estava lá no momento da concepção. É isso que me interessa e me define: é aí que a obra, a cultura e o pensamento de Saramago se encontram com a minha própria obra.

P: Falando da obra de Saramago, que livros você recomendaria para quem ainda não o leu, especialmente para entender seu pensamento sobre o ser humano?

A: A cegueira define perfeitamente o nosso tempo. Depois de escrever O Evangelho Segundo Jesus Cristo , Saramago passou por uma profunda revolução interior. Ter mergulhado nas origens da nossa civilização, que é a civilização cristã, e nos conflitos que o fator Deus gerou ao longo da história — guerras, sacrifícios pessoais, tortura, dogmatismo, martírio — o afetou profundamente, até que um dia ele disse: “Somos cegos. Somos cegos que, vendo, não enxergam”. Então ele escreveu Ensaio sobre a Cegueira . Esse livro nos retrata hoje: estamos à beira de uma catástrofe e não entendemos que só nós, como cidadãos, podemos nos salvar. Mais tarde, ele escreveu Ensaio sobre a Visão , onde o tema é a responsabilidade. Nesse livro, onde jovens aparecem em momentos cruciais, ele parece estar dizendo: “Vocês são importantes, abracem a sua lucidez, não deixem que os homogeneizem ou os desencorajem”. É por isso que recomendo a leitura de ambos os livros: Ensaio sobre a Cegueira e Ensaio sobre a Visão .

P: Uma explica o estado da sociedade, e a outra o que podemos fazer. Nesse sentido, não gosto de falar em uma "crise" da democracia , porque acredito no valor das palavras e na importância de sermos cuidadosos com o nosso discurso, mas que valores devemos resgatar para fortalecer a democracia? O que os jovens podem fazer?

A: Eu também não gosto de falar em "crise da democracia". Pobre democracia... São as sociedades que estão em crise. Pensamos que, porque há eleições, há democracia, e nem sempre é esse o caso . Democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo, mas com muita frequência delegamos nossas responsabilidades, permitindo que outros — não eleitos ou eleitos por meio de campanhas manipuladoras — governem sem prestar contas. E é assim que surgem as guerras, como se os seres humanos não importassem, como se milhares de mortes fossem apenas "coisas que acontecem". Em uma democracia, os seres humanos importam, todos eles. Para que haja democracia, precisamos de mais cultura, mais educação, mais responsabilidade. Devemos abandonar a lógica que nos reduz a números e lembrar que cada pessoa é única, com consciência e responsabilidade. Somente com cidadãos conscientes e comprometidos a democracia será o melhor sistema possível.

P: Essa ideia de desacelerar, de ouvir o outro, me lembra o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han , que fala sobre a sociedade da exaustão e a falta de comunicação verdadeira.

R: Exatamente. Vivemos numa solidão angustiante e sem criatividade. Estamos rodeados por milhares de contactos, mas não comunicamos com o coração e a alma, como se tudo fosse superficial. Antigamente, nas aldeias, as mulheres conversavam durante horas no final do dia; conheciam-se umas às outras, faziam companhia umas às outras. Não se sentiam sozinhas. Não estou a dizer que devemos voltar a sentar-nos à porta de casa, mas precisamos de recuperar a comunicação direta, o contacto visual, os projetos partilhados. Precisamos de nos conectar, ler, conversar olhando-nos nos olhos. Podemos tornar o mundo um lugar melhor. E se alguém achar isto utópico, bem, azar o seu: numa sociedade onde as pessoas se reconhecem, onde há pluralidade, respeito e encontro, há espaço para todos, e todos podemos lutar pelo sonho de sermos felizes.

P: Essa empatia de que você fala, essa frase que Saramago e você repetem em diversas ocasiões: “O outro tem o direito de dizer ‘eu’”, parece ter enfraquecido. Nesse sentido, como instituições como a Fundação Saramago ou o OEI podem fomentar sociedades mais empáticas?

A: Quando a OEI organiza encontros e reúne autores, artistas e músicos de diferentes países, demonstra que, apesar das nossas diferenças culturais, temos projetos que nos aproximam e mostram as possibilidades de convivência. Precisamos dar mais visibilidade às boas notícias, como as geradas pela OEI. Os meios de comunicação repetem as más notícias; vamos focar nas boas notícias, no concerto que emocionou tantas pessoas, nos projetos que constroem esperança e convivência. Detesto o ódio e vivemos rodeados por discursos de ódio; até governos e grandes meios de comunicação proclamam o ódio. Temos de encontrar antídotos para a sociedade de ódio que alguns estão a criar.

P: Mas com a internet e as redes sociais, não teríamos mais oportunidades de compartilhar boas notícias?

R: Somos dominados por algoritmos, mas ei, ainda podemos ser ativistas sem desistir.

P: Qual o papel, então, da cultura e do intercâmbio intercultural nesse contexto de fragmentação?

A: A cultura nos torna iguais. Graças à literatura, à pintura e à música, nos conhecemos uns aos outros. Sabemos como vivia o avô de García Márquez ou os sonhos de Cortázar. A cultura nos ensina que, independentemente da cor da nossa pele, todos queremos ser felizes. Onde há cultura, há respeito. E onde há respeito, não haverá invasões ou expulsões de migrantes, nem exploração dos nossos semelhantes. A cultura é o alicerce das relações humanas.

P: Todos os dias, quando você assiste ao noticiário, o que você acha que Saramago diria? Quais citações dele vêm à sua mente?

R: O que ele dizia com tanta frequência é o que me vem à mente: “Estamos loucos”. Saramago vivia em Lanzarote, uma ilha a meio caminho entre a América Latina, Espanha, Portugal e África. Para ele, simbolizava uma ponte. Ele defendia que a Bacia Cultural e Económica do Atlântico Sul deveria existir e ser tão decisiva hoje como a Bacia do Mediterrâneo foi na sua época. O Atlântico Sul é jovem, diverso, rico em línguas e culturas, e em recursos essenciais para o desenvolvimento. Espanha e Portugal poderiam aproximar a Europa das Américas, não como colonizadores, mas, finalmente, como iguais. Em aliança, o Atlântico Sul — isto é, as Américas, do Rio Grande à Patagónia — Portugal, Espanha e alguns países africanos poderiam formar uma força humanística, económica e cultural forte, poderosa, não invasiva, distinta e autónoma, independente de outras potências. Esse é um belo sonho que não devemos esquecer.

P: Concordamos plenamente. Na OEI também apoiamos a cooperação Sul-Sul e as indústrias culturais. Mas diga-me, a cultura é um direito?

A: É um dever.

P: Como os direitos humanos. Você costuma dizer que os direitos humanos não são um favor , mas uma responsabilidade individual.

A: A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 foi uma conquista histórica, mas foi assinada por Estados, não por indivíduos. E os Estados às vezes "saem de férias". É por isso que devemos abraçá-la como nossa. Na Fundação José Saramago, promovemos a ideia de uma Declaração dos Deveres Humanos: cada pessoa tem a obrigação de defender o maravilhoso documento que é a Declaração Universal e garantir sua implementação. Os direitos humanos devem ter prioridade sobre as leis do mercado. Se não entendermos isso, estaremos perdidos como humanidade.

P: Com base na nossa experiência na América Latina, penso no direito à educação, à alimentação básica, a um lar, a uma família que cuide de você…

R: E também o direito de amar, de escolher a religião ou não, de decidir a própria vida. Devemos estar vigilantes: uma nova forma de dominação econômica está surgindo , disfarçada de religião e dogma. Ela ameaça nos reduzir a seres resignados ou intimidados, como se estivéssemos vivendo em tempos de obscurantismo. É por isso que a cultura é mais importante do que nunca: para poder ver, conhecer e decidir livremente. Liberdade — um conceito que não pode ser desvalorizado.

P: Para concluir, que mensagem você daria aos jovens, futuros líderes, para que aprendam a ver e respeitar os outros?

A: Que sejam empáticos, que vejam os outros como iguais. Que questionem os mais velhos, porque cometemos muitos erros. Que busquem novos caminhos baseados na solidariedade e na consideração pelos outros. E que compreendam que a lua tem um lado oculto: para construir o futuro, precisamos de todas as vozes, todas as línguas, todas as cores, todas as culturas, tudo o que foi ignorado. Precisamos ver a lua cheia para sermos homens e mulheres livres, iguais, independentes e essenciais.

Vamos reconhecer que há muito a ser feito e fazê-lo juntos, para que se torne possível. Assim, com todas as informações necessárias, poderemos tomar decisões responsáveis ​​e bem fundamentadas. Isso é essencial.

Entrevista concedida a Maria Ignacia Bensadón. Publicada pelo EL PAÍS, em 23.12.25

Boric, um momento de reflexão: "A esquerda que só culpa o adversário está fadada a desaparecer."

O presidente do Chile, que deixará o cargo em 11 de março, é uma figura rara em seu meio político. Conversamos com ele em três encontros. Ele atuará na oposição e poderá se candidatar novamente daqui a quatro anos.

Gabriel Boric, fotografado em outubro em um café no bairro de Yungay, em Santiago, Chile. (Foto: Tomás Munita).

As paredes finas que Leonard Cohen descreve em *Paper Thin Hotel* não se assemelham em nada a estas paredes que hoje escutam o som de um dos álbuns mais caóticos do gênio canadense. O vinil de * Death of a Ladies' Man* gira em um escritório no Palácio de La Moneda, a poucos metros de onde, em 11 de setembro de 1973, Salvador Allende discursou ao povo chileno pela última vez, anunciando a reabertura das grandes avenidas, antes de tirar a própria vida em meio ao golpe militar que instaurou a ditadura de Augusto Pinochet. Gabriel Boric nasceu 13 anos após o atentado ao palácio. Símbolo da vanguarda da esquerda na América Latina, ele se lembra vividamente daquela dor. Na mesma parede onde guarda parte de sua coleção de discos, está pendurado um enorme cartaz em memória dos desaparecidos durante a ditadura militar . Tudo isso terá desaparecido até 11 de março, quando o homem que preside o Chile desde 2022 terminar seu mandato, tendo acabado de completar 40 anos. Boric passará o cargo para José Antonio Kast . E La Moneda, o epicentro da democracia chilena, deixará de ser o local de trabalho de um admirador de Allende e se tornará a residência do primeiro presidente a apoiar Pinochet desde o retorno da democracia em 1990.

Boric é uma figura rara em tempos de megalomania extrema. Ele se tornou o presidente mais jovem da história de seu país — chegando a La Moneda aos 36 anos — o que lhe rendeu o rótulo de figura emblemática de uma nova esquerda. Ele rejeita ambos os estereótipos porque eles implicam uma condescendência da qual ele busca se livrar rapidamente: “Sou relativamente jovem, não tão jovem assim, mas estou na política há muito tempo. Juventude não é uma virtude; há coisas antigas que valem a pena. Não estou tentando ser inovador. O que estou tentando fazer é ser consistente.”

Fotografias em vinil do Presidente do Chile em seu gabinete no Palácio de La Moneda. (Foto: Tomás Munita)

Quem conhece ou conviveu de perto com Boric, sejam apoiadores ou opositores, reconhece uma autenticidade evidente ao longo das três longas conversas que ele mantém com o El País Semanal , antes e depois das eleições, e que começa a ser percebida em seu próprio local de trabalho, onde o primeiro encontro acontece no final de outubro. Boric acaba de visitar o Papa Leão XIV no Vaticano — "o líder mundial de um partido com mais de 2.000 anos de história, a Igreja" — e chega particularmente interessado em Dilexi te , a primeira exortação apostólica sobre o amor aos pobres. Ele lê alguns parágrafos em voz alta e, a nosso pedido, nos mostra as dezenas de objetos que adornam seu escritório. Presentes que recebe em suas viagens, fotografias, pôsteres, pilhas de livros e discos — de Silvio Rodríguez a Pink Floyd , e Kolpez Kolpe, de Kortatu — todos coexistem nesse espaço. Entre todas as lembranças, há algo que você não esperaria encontrar no escritório de alguém que se declarou ateu desde a adolescência: uma imagem da Virgem Maria. "Não tenho o dom da fé, sou agnóstico", explica Boric. Mas sua mãe, Soledad Font, é profundamente religiosa. Membro do movimento de Schoenstatt e mãe adotiva de crianças à espera de adoção, ela deixou a imagem em um canto bem iluminado do escritório, perto de uma janela, junto com uma carta manuscrita na qual Font reza pelas principais reformas políticas que o governo tentava implementar. "Peça à Virgem Maria, peça a ela", aconselhou-o em muitas ocasiões.

Foi aqui, em 15 de dezembro, um dia após as eleições, que Boric recebeu Kast , recém-eleito após vencer com folga, obtendo 58% dos votos contra a comunista Jeannette Jara, ex-ministra do governo atual, que conquistou 42%. O encontro foi em particular: uma conversa “institucional e republicana”, como descreveu o então presidente. Evidentemente, uma das primeiras coisas que chamou a atenção do futuro ocupante de La Moneda foi a Virgem Maria: Kast, que, junto com sua esposa, María Pía Adriasola, tem nove filhos e também é membro do Movimento Schoenstatt, certamente não esperava encontrá-la no gabinete de alguém cujas visões políticas são diametralmente opostas.

Nas salas adjacentes ao gabinete, quatro dias após as eleições, um menino de oito anos brinca com uma bola. É seu enteado, Vale, filho de sua companheira, Paula Carrasco, com quem o presidente teve sua primogênita, Violeta, seis meses atrás. Nos gabinetes secundários, são visíveis berços e cadeiras de balanço, que a bebê usa quando visita o pai. Boric amadureceu durante este mandato de quatro anos. No âmbito pessoal: entrou em La Moneda em 2022 com uma namorada, que deixou o cargo de primeira-dama e com quem se separou no meio do mandato, e deixará o governo em 2026 como pai de uma família que pretende aumentar: “Acordo todos os dias com uma bebê de cinco meses balbuciando ao meu lado e me dando sorrisos. Independentemente das circunstâncias políticas, meu coração e espírito estão plenos.”

Politicamente, Boric mudou ainda mais.

Boric assumiu a presidência em 11 de março de 2022. Contra todas as expectativas, derrotou o candidato do icônico Partido Comunista nas primárias de esquerda e, em seguida, o próprio Kast nas eleições de novembro de 2021. Foi em meio à pandemia e dois anos após a maior onda de protestos sociais já vista no Chile que o deputado Boric desafiou as ordens de seu partido e participou da assinatura de um acordo de paz e uma nova Constituição . Essa foi a proposta que a classe política e o governo de Sebastián Piñera fizeram à população para canalizar o descontentamento institucionalmente. O primeiro processo constituinte foi rejeitado poucos meses após a posse de Boric, apesar de ele tê-lo promovido no Palácio de La Moneda: “Foi uma grande frustração. Não em relação à votação final, mas à falta de diálogo. Eu me pergunto constantemente se poderíamos ter colaborado mais para que esse diálogo acontecesse”. O segundo processo, com princípios antagônicos marcados pela extrema direita, também foi rejeitado. “O povo do Chile foi muito sábio ao rejeitar ambos os textos, porque em ambos os processos aqueles que detinham a maioria tentaram negar a minoria. Um país não se constrói assim.”

O processo constitucional não só moldou o rumo do governo, como também frustrou as expectativas de muitas pessoas. Analistas agora o citam como um dos muitos fatores que contribuíram para a vitória de Kast. “A esperança foi frustrada e surgiu um certo ceticismo em relação à política como força transformadora. Um retorno à ideia de que, se não conseguem transformar as coisas para melhor, o mínimo que se exige é ordem. Acho que não havia capacidade de convencer a maioria da população de que poderíamos representar uma ordem desejável. O elemento mais significativo nos resultados das eleições foi a questão da segurança. Apesar de termos aprovado mais de 70 leis sobre o assunto e melhorado as condições dos Carabineros (polícia), não conseguimos obter credibilidade suficiente junto à maioria da população. A esquerda ainda não representa o desejo por ordem. Ordem não precisa ser de direita. Ordem é certeza, é estabilidade. Ninguém quer um país desordenado. E as eleições hoje são movidas principalmente por emoções. Se em 2021 conseguimos mobilizar a esperança, agora a direita conseguiu mobilizar — e não digo isso de forma pejorativa — o medo do outro, do crime, da insegurança econômica.”

—Como você explica que o medo seja mais motivador do que a esperança?

—Porque a esperança foi frustrada durante os processos constitucionais, e nosso governo, apesar de ser minoria parlamentar, alcançou transformações, mas estas foram menos heroicas do que aquelas que haviam animado um certo segmento da população. Diante da frustração com um projeto altamente transformador, surgiu uma demanda por ordem, ligada a problemas do mundo real. Crime e migração são problemas muito reais no Chile.

—E a que reflexão você chega depois de tudo isso?

—A política democrática não se trata de heroísmo, mas de coerência, responsabilidade e uma transformação real das condições de vida das pessoas. Posso fazer discursos inflamados, encontrar antagonistas, prometer qualquer coisa, mas se a qualidade de vida não melhorar, é irrelevante.

O Palácio La Moneda visto da Plaza de la Constitución, em Santiago, Chile. (Foto: Tomás Munita)

Boric afirma que, quando chegou a La Moneda em 2022, havia “confronto, uma desconexão praticamente total” entre os chilenos, e que hoje existem certos pontos de consenso, como a ideia de que as políticas públicas mais eficazes são aquelas desenvolvidas por meio do diálogo social, e que o crescimento não é incompatível com a distribuição, algo que “é positivo que a esquerda esteja abraçando”. O Banco Central prevê um crescimento de 2,4% para este ano. Durante seu mandato, foi aprovada uma lei que estabelece a semana de trabalho de 40 horas (em implementação gradual), foram cobrados impostos das grandes empresas de mineração, o salário mínimo foi aumentado para o equivalente a aproximadamente 500 euros (“o aumento mais significativo dos últimos 20 anos”) e foi criado um Sistema Nacional de Apoio e Cuidado que reconhece e apoia indivíduos – geralmente mulheres – que prestam cuidados não remunerados. Ele também reformou o sistema previdenciário, uma questão pendente há muito tempo. O governo, que inicialmente buscava eliminar as administradoras de fundos de pensão privados (AFPs) que gerenciam as economias dos chilenos, acabou cedendo, chegando a um acordo que injeta solidariedade no sistema. Enquanto isso, a percepção de insegurança disparou. Segundo uma pesquisa do Gallup, o Chile ocupa a sexta posição entre 144 países onde as pessoas se sentem menos seguras caminhando em seus bairros à noite. Além disso, a taxa de homicídios dobrou nos últimos 10 anos, em parte devido à ascensão de gangues transnacionais do crime organizado, e a violência com que os crimes são cometidos tem aterrorizado a sociedade chilena.

A Ministra Secretária-Geral do Governo, Camila Vallejo, com Gabriel Boric, durante uma reunião do Conselho de Ministros em La Moneda, em 10 de outubro de 2025. (Foto: Tomás Munita)

“A dúvida deve seguir a convicção como uma sombra”, escreveu Albert Camus em um de seus artigos para a revista da Resistência Francesa, Combat . Essa frase tornou-se uma espécie de leitmotiv para Boric, que ele repete com tanta frequência que chega a se desculpar com Nicole Vergara, sua incansável assessora de imprensa, por já tê-la ouvido tantas vezes. “As pessoas em quem mais desconfio são aquelas que nunca duvidam”, reflete ele ao ser questionado sobre uma possível moderação em suas opiniões após quatro anos no poder, o que ele rejeita: “É preciso constantemente testar o próprio raciocínio contra argumentos sólidos. Isso pode ser feito mantendo-se coerente e defendendo princípios e posições políticas. Comecei meu mandato como alguém que se definia como de esquerda e termino meu mandato me definindo como de esquerda.”

A concepção de esquerda de Boric lhe rendeu reconhecimento internacional, bem como críticas. Ele a vê como uma força política que não prospera atribuindo culpas ou recorrendo a grandes narrativas, mas sim se submetendo a um constante autoexame e a uma análise crítica de sua relação com a sociedade. Ele a vê como uma esquerda que entende a política como um exercício de coerência e responsabilidade, mais atenta aos efeitos reais de suas decisões do que a gestos heroicos ou pureza retórica. Ele a vê como um movimento progressista que só pode aspirar a perdurar se for capaz de transformar as condições de vida das pessoas. Sem autocrítica, coerência e resultados, seu lugar na história se tornaria precário. Essa convicção o leva a responder sem hesitar quando questionado se os erros do governo foram decisivos para a derrota eleitoral da esquerda e a ascensão ao poder, pela primeira vez na era democrática, da extrema direita.

—Não, não acho que haja ninguém a culpar. Não se trata de um colapso. É importante que haja uma revisão, porque a luta pela hegemonia não é estática. Se a esquerda parar de refletir sobre si mesma, sobre o que afirma representar, estará claramente morta. Mas acho que é um erro se distanciar e renegar o que foi conquistado.

—Muitas pessoas acreditam que seu legado será deixar a extrema direita no poder.

“Não gosto de falar sobre o meu legado. Não me preocupo com o que se diz sobre o legado de Boric, nem com o fato de falarem de mim na terceira pessoa. Acho isso de muito mau gosto. Herdamos um país fragilizado em muitos aspectos, principalmente no que diz respeito ao senso de comunidade , e entregamos um país em boas condições. Restauramos a confiança em nós mesmos como nação, em nossos processos institucionais. Ficou demonstrado que o Chile resolve seus problemas por meio da democracia, que através da política é possível chegar a acordos que melhoram a qualidade de vida das pessoas. Esse é um legado importante. O Chile é um país em boas condições, com muitos problemas, com muitas dificuldades, depois de ter estado à beira do colapso após uma crise social muito, muito difícil.”

Boric, em outubro, em um café no bairro de Yungay, em Santiago, Chile, onde mora. (Foto: Tomás Munita)

Em 14 de dezembro, poucos minutos após a confirmação da vitória de seu adversário, Boric ligou para Kast, cena presenciada ao vivo por milhões de chilenos. Mais um exemplo do institucionalismo e da "cultura cívica" que o ainda presidente celebra. "Há valor nesse republicanismo. A oposição não reconheceu a vitória de Daniel Noboa no Equador, Jair Bolsonaro tentou um golpe contra Lula... A democracia é salvaguardada a cada instante", destaca Boric.

"Habitar o cargo" é uma metáfora que ele tem usado em diversas ocasiões desde que assumiu a presidência. "Ao dizer 'habitar o cargo', quero dizer que ele não é preenchido apenas pela pessoa. O Chile é um país muito presidencial, e é preciso se adaptar a certos costumes inerentes ao cargo", explica Boric, frequentemente mencionado por sua aparência atípica no ecossistema presidencial, repleto de tradições preconceituosas, por não usar gravata ou por arregaçar as mangas da camisa, revelando uma de suas cinco tatuagens. "Mas há outras coisas que eu faço, como minha relação com as instituições, as Forças Armadas; até mesmo a decoração, mantendo o retrato de O'Higgins [que está pendurado em seu gabinete]. As pessoas não interagem apenas com Gabriel Boric; não se deve levar isso para o lado pessoal. Elas interagem com o Presidente da República", afirma.

“Faço um esforço consciente para não encarar isso como uma experiência pessoal, mas como uma responsabilidade coletiva. É uma honra”, acrescenta durante a segunda entrevista ao El País Semanal , também em outubro, em um café em Yungay, um bairro atípico de Santiago, Chile, onde escolheu morar como presidente. Em breve, ele se mudará novamente, com sua companheira e dois filhos, para a casa que comprou em San Miguel, um bairro tradicionalmente de classe média. Ele chega ao café usando boné, óculos escuros e camisa de manga curta. Pede um cortado sem lactose. Gostaria de ficar depois da reunião, apenas lendo em paz, embora desta vez vá para casa porque sua companheira e filha tiveram uma noite ruim. Isso não incomoda Boric: ele nunca dormiu muito, revela. A segurança ao seu redor é praticamente imperceptível. Boric costuma andar de bicicleta e tenta se perder pela cidade. É um de seus hobbies, junto com música, videogames — ele comprou um PlayStation 5 — e passar tempo com a família. “Nunca vivi nada assim antes”, diz ele sobre Paula e as crianças.

Boric passeia pelo bairro de Yungay acompanhado de um assessor. (Foto: Tomás Munita)

Se há algo que o apaixona, é a leitura. Ao longo dos seus quatro anos no governo, ele fez questão de manter esse apetite voraz. Durante a primeira entrevista, sobre a sua mesa, havia exemplares de * O Cérebro Fragmentado e a Geração Emergente *, *O Corredor Estreito* e *O Fim do 'Homo Sovieticus'* . Ele considera este último, de Svetlana Alexievich, um dos melhores livros que já leu. Para o segundo encontro, no café Yungay, ele chegará com um livro sobre educação. E para o terceiro, após a vitória de Kast, ele tirará da mochila * Por um Retorno ao Socialismo *, de Gerald A. Cohen.

Em vários momentos das conversas, Boric insiste que suas convicções ideológicas permanecem intactas, mas o que desapareceu foi o deputado Boric que, antes de chegar ao poder, proclamou que o Chile seria o túmulo do neoliberalismo, dado que era seu berço. “Tais afirmações categóricas e hiperbólicas não se encaixam bem na realidade”, admite, embora sustente que “qualquer perspectiva progressista na América Latina, onde o neoliberalismo se instalou tão violentamente, deve aspirar a superá-lo. Ainda acredito nisso, e ainda estamos trabalhando nisso, embora em um ritmo diferente do que gostaríamos”. “Quando a realidade muda, mantendo-se fiéis aos próprios princípios, é preciso saber adaptar-se a essa nova realidade, caso contrário, haverá um colapso. A política não é para mártires ou obtusos. É preciso ser flexível, habilidoso e capaz de se adaptar às circunstâncias. Sinto orgulho quando as pessoas me dizem que tenho sido consistente nos princípios e valores que defendo. Isso necessariamente anda de mãos dadas com a capacidade de mudar de ideia, de ser flexível e se adaptar à realidade, e não tentar adaptar a realidade a ideias abstratas. E, ao mesmo tempo, ser persistente na crença de que as coisas podem ser mudadas, mas não partindo da premissa de que elas são como eu quero que sejam. A política pode mudar o mundo. Mas é um esforço de longo prazo. As conquistas só aparecem depois de anos de trabalho.”

Boric cumprimenta um vizinho do bairro de Yungay. (Foto: Tomás Munita)

Boric é orgulhosamente de Magalhães. Ele retorna à sua terra natal, como chama o extremo sul do Chile, que também é o extremo sul da América do Sul, sempre que pode, e seu desejo a partir de março é combinar a vida em Santiago com estadias em Punta Arenas, onde nasceu e cresceu, embora isso implique, brinca ele, uma conversa entre dois e não uma declaração em entrevista: “Não vou me desapegar de Magalhães, Magalhães faz parte de quem eu sou”. A bandeira azul e amarela de sua região adorna a capa de seu celular. Lá, ou melhor, a partir de Magalhães, Boric começou a aprender sobre o mundo. Seu método era o de tantas crianças no início dos anos noventa: lia Emilio Salgari , as aventuras de Sandokan, Os Piratas da Malásia : “Conheço a Malásia sem nunca ter estado lá”. Antes de se tornar presidente, disse ao repórter americano Jon Lee Anderson que achava que podia ver o mundo: havia viajado para a Disney, para a Europa e para a Palestina. O mundo testemunhou esses anos, mas em muitos casos, como no dia em que ele circulou o Coliseu em Roma de van, não com o tempo e a atenção que gostaria. Paradoxalmente, foi sua política externa e sua posição sobre as questões mais sensíveis para a esquerda que lhe renderam maior aclamação fora do Chile nos últimos anos, e é por isso que muitos gostariam de vê-lo em uma organização internacional ao final de seu mandato, algo que Boric nega categoricamente: "Não quero um cargo internacional".

Ele é um líder que não hesita em falar sobre o genocídio na Palestina e que condenou a invasão da Ucrânia , mas, sem dúvida, sua posição tem sido a mais contundente assumida por um político progressista em relação à Venezuela nas últimas décadas . "É desanimador, depois das lições aprendidas no século XX, ver que hoje, mesmo na esquerda, há quem repita os mesmos padrões", começa ele, durante o primeiro encontro em outubro, ao ser questionado sobre essa particularidade dentro de sua esfera ideológica. “Venezuela e Nicarágua são exemplos perfeitos disso. O caso da Ucrânia é mais complexo. Estranhamente, pelo menos na América Latina, houve setores que não conseguiram condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia, talvez devido a algum tipo de identificação — não sei se era nostálgica — entre a Rússia e a União Soviética, ou talvez por causa do conflito entre a Rússia e os EUA. O que eu vi foi um país invadindo outro país soberano com a intenção de se apoderar de seu território, violando o direito internacional. E isso, independentemente da filiação política do atual líder da Ucrânia e do líder permanente da Rússia, estava errado.”

“Sinto-me completamente à vontade para assumir uma posição muito firme sobre o terrorismo do Hamas e sobre o genocídio perpetrado pelo governo Netanyahu; sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia e as violações dos direitos humanos cometidas pelo Estado chileno contra o seu próprio povo durante a ditadura”, continua ele, antes de retornar ao cerne de muitos dos seus argumentos. “É preciso ter o mesmo padrão para julgar os fatos. Caso contrário, perde-se a credibilidade.”

—Você simpatizou com o chavismo em seus primórdios. O que o levou a mudar de posição em relação à Venezuela?

“Há muitas razões, tanto teóricas quanto ideológicas, mas para mim, a mais significativa é o êxodo. Um país do qual mais de sete milhões de pessoas fugiram… Não se pode defender algo assim. E vendo agora, neste último ano, como se agarraram ao poder da maneira mais ilegítima, sem qualquer vergonha, fica claro para mim que se trata de uma ditadura. Toda a nossa geração encarou o chavismo com grande esperança e entusiasmo em 1998. Também vimos a integração latino-americana que Chávez promovia, para além dos excessos retóricos, alguém que se oporia firmemente aos Estados Unidos. Mas depois percebemos que não houve uma transformação econômica substancial na própria Venezuela, que a corrupção generalizada se instalou, que os níveis de pobreza eram extremos e que todas as liberdades que definem uma democracia foram violadas.”

Essa postura franca contra a Venezuela e a Nicarágua o tornou um alvo predileto do regime de Nicolás Maduro, cuja captura no último sábado levou Boric a criticar o ataque de Trump: “Que um Estado estrangeiro tente exercer controle direto sobre o território venezuelano, administrar o país e, eventualmente, como indicou seu presidente [Trump], continuar as operações militares até impor uma transição política. Isso estabelece um precedente extremamente perigoso para a estabilidade regional e global”. Embora Maduro nunca tenha tolerado o eco das palavras de Boric sobre tirania, elas encontraram ressonância em outros líderes progressistas, como os do México, Colômbia e Brasil. “Isso prejudica as forças progressistas, sim, prejudica”, admite o presidente chileno, que afirma compreender “o raciocínio lógico por trás dessas posições”, embora não as compartilhe, e isso não os impede de serem aliados em muitas outras áreas.

—E Cuba? Isso complica ainda mais a situação?

"Isso não me confunde em nada. Cuba está passando por uma situação muito semelhante. Hoje, em Cuba, há escassez de alimentos e medicamentos, e o transporte é difícil; uma parcela significativa dos jovens deixou o país. É muito claro que não há democracia em Cuba; é um regime de partido único e não há liberdade de expressão. De qualquer perspectiva, isso é uma ditadura. A principal responsabilidade recai sobre aqueles que governam Cuba, embora os efeitos do embargo não possam ser negados."

Boric, com alunos e professores da Escola da República da Áustria em Santiago, em 17 de outubro de 2025. (Foto: Tomás Munita)

Poucos dias antes das conversas com o presidente chileno, Boric saiu para comemorar o aniversário de seu irmão mais novo, Tomás — ele tem outro irmão, Simón, jornalista — em um restaurante. Na entrada, uma senhora de mais de oitenta anos o cumprimentou — "Vamos lá, Sr. Presidente" — e continuou conversando com Paula, sua companheira. Boric a ouviu dizer à mulher: "Mas pergunte a ele", e, depois de superar o constrangimento, ela lhe disse: "Tenho alguns vizinhos que estão espalhando boatos de que o senhor esteve em um hospital psiquiátrico e que o trataram como se fosse louco".

—Sim, eu estive em um hospital psiquiátrico e não sou louco.

Boric sorri ao se lembrar da conversa com a mulher. O presidente se internou voluntariamente em uma clínica de reabilitação em 2018 por três semanas para tratar o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), que estava "muito descontrolado". Naquela época, descobriram a "alquimia dos medicamentos", como ele chama. "Uma dose alta que não afeta em nada minha cognição", afirma. A partir de março, ele diz, passará por um processo de revisão. " A saúde mental é altamente estigmatizada. Se eu tivesse quebrado o joelho praticando esportes hoje, certamente precisaria de cirurgia, e ninguém questionaria. Mas se eu tenho um transtorno que é tratado com medicação, dizem: 'Esse maluco não está apto para o cargo'."

A naturalidade com que ele fala sobre saúde mental também é reconhecida além das fronteiras do Chile. “Não tenho vergonha disso. Poder transformar minha experiência pessoal em política pública e falar sobre saúde mental tem sido muito libertador para muitas pessoas. Abracei isso completamente e estou pronto para lutar contra esses preconceitos. No Chile, um número significativamente maior de pessoas morre por suicídio do que por homicídio. E o suicídio é, digamos, a ponta do iceberg, porque existem muitos outros problemas ligados à saúde mental, nem todos necessariamente patológicos. Saúde, no fim das contas, não é apenas a ausência de doença.”

—Uma vitória da extrema-direita poderia significar um retrocesso nas políticas públicas?

"Seria muito difícil, senão impossível, para um governo retirar os direitos que as pessoas conquistaram após uma longa luta. O povo não permitiria. As mulheres, a sociedade em geral, não permitiriam qualquer retrocesso nos direitos ao aborto, seja qual for o motivo, ou na garantia universal da aposentadoria. E o mesmo se aplica à saúde mental."

Boric, em seu escritório, com o retrato do General Bernardo O'Higgins ao fundo. (Foto: Tomás Munit

É 18 de dezembro. Quatro dias se passaram desde a derrota esmagadora nas eleições. O ritmo em La Moneda não diminui. Boric aprofunda-se na reflexão política como em conversas anteriores.

—Como você está se sentindo? Com ​​raiva, preocupado, nervoso?

—Politicamente, estamos ocupados. Temos diferenças muito substanciais em relação ao modelo de sociedade com o qual a direita venceu. Nosso foco deve ser reconquistar a maioria. Não basta se sentir bem com as próprias ideias se elas não forem compartilhadas pela maioria da sociedade.

No dia 11 de março, Boric se despedirá de La Moneda. Será certamente um "até logo". A Constituição proíbe a reeleição, mas permite um segundo mandato após quatro anos. Ele não menciona isso, nem sequer insinua, em quase quatro horas de conversa, mas a história fala por si: a maioria de seus antecessores desde 1990 — o democrata-cristão Eduardo Frei, os socialistas Ricardo Lagos e Michelle Bachelet, e o direitista Sebastián Piñera — tentaram retornar, e no caso dos dois últimos, foram reeleitos.

Em um Chile governado por Kast, o que fica claro é que Boric não deixará o país nem a política, embora, apesar dos repetidos pedidos, não queira dar muitos detalhes sobre seus próximos passos: “É saudável para mim, como ex-presidente, ficar fora dos holofotes por um tempo. Não serei comentarista sobre os primórdios do futuro governo. Obviamente, se houver mentiras ou ataques, terei que defender o que foi feito.” Refletindo sobre seus próximos passos, Boric demonstra apreço pelo próximo presidente do Chile: “Uma das coisas que Kast fez, em sua terceira candidatura, foi visitar todos os municípios. Não se trata apenas de uma onda de direita no mundo, ou do que o governo fez ou deixou de fazer. Há também um trabalho persistente envolvido.” Ao mesmo tempo, ele reconhece que a Frente Ampla, que fundou quando a disputa institucional começou, negligenciou um pouco o trabalho comunitário: “O que me interessa é o trabalho de base; precisamos fortalecer os partidos políticos, conectar-nos com esse setor da população que está atualmente à margem da política.” Boric enfatiza a importância de sua formação política e afirma que deseja organizar trabalho voluntário, inspirado no tipo de trabalho que os estudantes realizavam no Chile no início da década de 1970, mas com os desafios do século XXI. "Tenho interesse em construir comunidade", acrescenta. E, embora vá ter um escritório, pretende dedicar tempo a viajar por todo o Chile.

—Então, vai voltar a ser um pouco como era antes…

"Não sei exatamente para o que voltarei. O que sei é que continuarei trabalhando para construir uma ampla aliança entre a esquerda, a centro-esquerda e o centro. Esta é a profissão pela qual sou apaixonado e continuarei trabalhando para melhorar a qualidade de vida do povo chileno, a partir de uma posição que ainda está por ser definida. Nós, da política, somos, por natureza, inconformistas. Sempre que atingimos um objetivo, o próximo surge imediatamente. Não é como se eu fosse terminar no dia 11 de março e dizer: 'Pronto, fizemos tudo o que tínhamos que fazer'. Avançamos na direção de construir um país mais justo, mais igualitário e mais coeso socialmente, com uma melhor distribuição de renda, mas ainda há muito a ser feito."

Boric também não quer especular sobre como deveria ser a oposição a Kast. Em primeiro lugar, porque acredita que seria irresponsável fazê-lo a partir de sua posição atual. “Depende muito do comportamento do governo, mas o que me é certo é que a oposição precisa ser democrática; não pode se limitar ao Twitter ou a panelinhas políticas, mas sim estar intimamente ligada ao território, ao povo.” E ele defende que se dedique tempo a isso: “Uma conversa de bar não basta. A esquerda que só culpa o adversário está fadada a desaparecer.”

Entrevista concedida a Javier Lafuente e Rocío Montes. Publicada pelo EL PAÍS, em 10.01.26


Quanto custa comprar a Groenlândia?

ColunaTrump tem um magnata dentro de si, e certamente quando olha para um mapa, vê algo mais parecido com um catálogo de imóveis.

Um canto da capital da Groenlândia, Nuuk, nesta quarta-feira. (Evgeniy Maloletka  - AP)

Donald Trump é um visionário; ele tem um magnata imobiliário no sangue, não tem como evitar. No caso dele, é quase genético, pois herdou o status de magnata do pai, Fred Trump, e isso sempre deixa sua marca. De fato, ele trocou o negócio de desenvolvimento imobiliário, comprando e vendendo propriedades e terrenos, financiando projetos de construção e administrando terras, pelo negócio da política quando chegou à Casa Branca em janeiro de 2017. E ele ainda está lá nove anos depois. Certamente é por isso que, quando o Presidente dos Estados Unidos olha para um mapa-múndi, ele vê algo diferente do que nós, meros mortais, vemos, algo mais parecido com um catálogo imobiliário, repleto de oportunidades de investimento. Como quando propôs transformar Gaza, bombardeada e massacrada por Israel, em um resort turístico de luxo e divulgou um dossiê com imagens criadas por inteligência artificial para recriar a futura Riviera do Oriente Médio. É preciso muita determinação e o perfil de um magnata para enxergar a oportunidade de negócio em meio a tantos escombros e tantos campos de refugiados . Por isso, foi tão fácil para ele atribuir um preço à propriedade mais recente que almeja: a Groenlândia.

Trump vinha alertando os habitantes da Groenlândia há semanas que queria manter a ilha , quer eles gostassem ou não. A qualquer custo, à força ou com dinheiro. A própria Casa Branca lançou uma campanha nas redes sociais para deixar claro que o governo atual não vê futuro para a ilha a não ser sob a bandeira americana . Por exemplo, apresenta um trenó puxado por cães com duas opções de cenário: um ensolarado sob a Casa Branca, ou o outro no meio de uma tempestade sob o Kremlin e a bandeira chinesa. Chegou até a criar memes com Trump olhando para um mapa da Groenlândia nevada da janela do Salão Oval. Sem dúvida, a estratégia de comunicação desta Casa Branca está em outro nível.

O importante é persistir. Não importa que a Dinamarca e o governo de Nuuk tenham rejeitado a ofensiva americana de todas as formas possíveis. Os americanos não recuam diante de um "não" e devem compartilhar a máxima de um banqueiro espanhol falecido, que afirmava que o segredo dos negócios está em saber que tudo tem um preço. Trump já começou a fazer as contas e já tem um valor em mente: US$ 700 bilhões pela ilha, segundo fontes próximas às negociações citadas pela NBC News.

Algumas pessoas estão indignadas com o valor, enquanto outras fazem seus próprios cálculos. Com os ativos que administra, a BlackRock poderia comprar 20 Groenlândias, por exemplo. Os EUA destinaram US$ 1,2 trilhão apenas para o pagamento de juros da dívida em 2025. Em outras palavras, estamos falando de valores administráveis ​​para alguns. A quantia supera em muito os cálculos que circulam nas redes sociais nos últimos dias. As propostas mais generosas sugerem dar a cada groenlandês um milhão de dólares (em comparação com US$ 10.000 para a proposta mais frugal) e 100 anos de isenção fiscal em troca de uma ilha com uma área de pouco mais de dois milhões de quilômetros quadrados. No total, entre US$ 570 milhões e US$ 57 bilhões. Uma verdadeira pechincha imobiliária, considerando os preços atuais dos imóveis.

É inegável que Trump está se conectando a uma tradição histórica, já que os Estados Unidos adquiriram 40% de seu território por meio de puro poderio financeiro, do Alasca à Louisiana, da Flórida a Manhattan. Agora, com a reabertura das rotas marítimas do Ártico, Trump viu uma oportunidade de criar um novo Mar-a-Lago, mas desta vez com ursos polares em vez de flamingos. Quem resistiria? Como alguém poderia se ofender quando essa estratégia já funcionou tão bem tantas vezes?

Alicia González, a autora desta matéria, é Colunista do EL PAÍS. Especialista em relações internacionais, geopolítica e economia, cobriu reuniões do FMI, da OMC e do Fórum de Davos. Trabalhou para a Gaceta de los Negocios, na área de comunicação do Ministério da Economia (onde participou da introdução do euro), no Cinco Días, na CNN+ e no Cuatro. Publicado originalmente pelo EL PAÍS, em 16.01.26