domingo, 30 de novembro de 2025

Por que o crime organizado persiste na América Latina?

O crime na América Latina não é cometido por indivíduos, mas por redes. Quando uma organização cai, a que a substitui não começa do zero: herda rotas, contatos, mercados e autoridades dispostas a negociar.

Apreensão de fentanil em Tijuana, México, em outubro de 2022. (Crédito: Salwan Georges (The Washington Post via Getty Images)

No coração da Amazônia, onde o mapa se dissolve numa faixa verde, um grupo de homens cava a terra lamacenta em busca de ouro . Não há nenhuma história épica. Apenas geradores velhos, lonas plásticas, barracas, gasolina roubada e uma grossa camada de lama que gruda na pele.

Um drone caseiro vigia o acampamento; mais adiante, um pequeno avião descreve um círculo perfeito sobre o rio; a poucos quilômetros de distância, em um cais improvisado, um intermediário aguarda a carga que, naquela mesma noite, seguirá para uma fundição legal em outro país, onde ninguém questionará sua origem.

Nenhum dos homens que trabalham na escavação conhece o piloto do pequeno avião. O piloto não conhece o intermediário no porto. Ele jamais encontrará o comprador final, que certamente é alguém "decente": uma mulher prestes a se casar, um jovem muito charmoso.

Todos eles, porém, fazem parte da mesma máquina: uma economia ilegal que conecta uma selva remota aos mercados globais.

Câmara escura

É ouro, mas pode ser fentanil, mercúrio, mogno ou barbatanas de tubarão.

É a Amazônia, mas poderia ser Putumayo, Culiacán ou qualquer bairro operário da América Central.

É quinta-feira, mas poderia ser terça ou sábado. Sempre é algum dia.

O cenário muda. A lógica permanece a mesma.

A miragem do fim

O cenário amazônico parece único, mas na América Latina, o que é único quase sempre é a norma. Mesmo assim, temos feito a mesma pergunta há décadas: por que não erradicamos o crime organizado ?

A questão já está distorcida: pressupõe que haja um fim, que basta capturar o traficante certo ou executar a operação certa para que tudo termine.

A realidade é menos cinematográfica.

Nenhum país "acabou" com o crime organizado. Os Estados Unidos não eliminaram a Máfia; a Itália não acabou com a ' Ndrangheta ; o Japão convive com suas próprias organizações há mais de um século.

O que alguns países conseguiram — com resultados desiguais — foi limitar o seu âmbito de atuação, conter a tomada de poder pelas instituições, impedir que controlem territórios e limitar a violência com que impõem as suas regras.

Aqui, tendemos a ver as coisas de forma diferente. Preferimos seguir o rastro do rosto mais procurado, da prisão espetacular. Ao fazê-lo, transformamos o crime organizado numa sequência de episódios, numa galeria de protagonistas.

Em nossa opinião, a estrutura desaparece por trás do personagem.

Estávamos enganados. O crime na América Latina não opera por meio de indivíduos, mas sim por meio de redes. Quando uma organização cai, a que a substitui não começa do zero: ela herda rotas, contatos, mercados e autoridades dispostas a negociar. É por isso que persiste.

Não por fatalismo — se ao menos fosse tão simples — nem por falta de vontade — a desculpa de sempre —: é a própria região que proporciona o cenário perfeito para que essas estruturas permaneçam, mudem de forma e retornem.

Essas condições — que chamarei de motores — devem ser enfrentadas de frente.

Primeiro fator determinante: mercados ilegais transnacionais

O crime organizado persiste, sobretudo, porque tem mercados.

E esses mercados — drogas sintéticas, cocaína, ouro, madeira, gasolina roubada, tráfico de animais selvagens — dependem de uma economia global que os torna extraordinariamente lucrativos.

A demanda move tudo: mais de 80% do fentanil consumido nos Estados Unidos é produzido ou traficado a partir do México; a Europa consome cocaína processada na região andina; e em países como Peru, Bolívia ou Venezuela, grande parte do ouro exportado tem origem ilícita.

Mina de ouro na Amazônia brasileira, em imagem de arquivo. Fotos do Brasil  (LightRocket via Getty Images)

As margens de lucro explicam a persistência. Um quilo de cocaína que custa menos de US$ 2.000 nos Andes pode ser vendido por US$ 30.000 em El Paso. Dividida em quantidades menores em Nova York, seu valor pode ultrapassar US$ 100.000. Uma tonelada de madeira de lei extraída ilegalmente pode multiplicar seu valor até chegar aos portos asiáticos.

É por isso que as organizações não desaparecem; elas são substituídas. Aquela que fecha deixa um vazio, e alguém rapidamente o preenche. Os mercados não esperam.

E, claro, há a diversificação. Essas organizações aprenderam a se adaptar. Se o alvo é a cocaína, elas passam a visar o ouro. Se as rotas de extração de madeira são monitoradas, começam a extorquir os produtores de abacate . Se o tráfico de animais selvagens é controlado, elas vão atrás dos minerais.

Os mercados estão interligados e o encerramento de um simplesmente transfere a atividade para o próximo. Enquanto existirem esses incentivos globais, haverá agentes disputando o controle.

Segundo motor: Estados locais frágeis

O crime organizado prospera onde o Estado se torna permeável.

A América Latina carrega um paradoxo bem conhecido e teimosamente arraigado: Estados-nação capazes de projetar poder para o exterior coexistem com instituições locais muito frágeis para sustentar a vida cotidiana.

Na última pesquisa regional do BID, 54% dos domicílios latino-americanos relatam a presença de grupos criminosos em seus bairros, e 14% reconhecem que esses mesmos grupos regulam a segurança ou os serviços básicos de alguma forma. Para milhões de pessoas, a autoridade imediata não é aquela listada no organograma, mas sim aquela que aparece quando algo precisa ser resolvido hoje, não amanhã. Acadêmicos se referem a esse fenômeno como “governança criminosa”.

É nesse terreno que o crime organizado se instala. Uma vez ali, torna-se parte da paisagem, aquela zona cinzenta onde o Estado perde a sua clareza e outros atores tomam o seu lugar.

Terceiro fator: desigualdade e recrutamento constante

Em "Mais Dinheiro, Mais Crime" (Oxford University Press, 2018), o sociólogo Marcelo Bergman formulou uma tese que contradiz o senso comum: quando as economias crescem sem instituições capazes de regular os mercados e corrigir as desigualdades, a riqueza não traz paz; ela abre as portas para mais crimes.

Em contextos frágeis, mais recursos não significam mais bem-estar, mas sim mais oportunidades para economias ilegais e, com elas, uma demanda incessante por mão de obra.

Aí reside o ponto cego do debate público: as organizações criminosas nunca ficam sem gente. Segundo a OIT, quase 20% dos jovens na América Latina não estudam nem trabalham. São um terreno fértil, uma fonte inesgotável de criminalidade .

Operação do exército mexicano em Michoacán, novembro de 2024. (Galo Cañas Rodríguez (Quarto-escuro)

Para muitos, ser vigia, mensageiro, cobrador de dívidas ou transportador não é um desvio trágico, mas uma opção facilmente acessível. A vida legal é lenta; a vida criminosa, por outro lado, oferece renda imediata, um senso de pertencimento e uma forma de ascensão social que as instituições formais nem sempre garantem.

É por isso que as organizações não ficam sem: as substituições também não.

Quarto motor: o rio de aço

A tudo isso se soma um fator que distorce completamente a equação latino-americana: o fluxo incessante de armas provenientes dos Estados Unidos. Nenhuma outra região recebe um volume tão grande de armas legais que se tornam ilegais tão rapidamente.

Quantos? Não há uma resposta precisa. Os números mais conservadores apontam para 135.000 por ano: 400 por dia, uma insistência diária e implacável que ultrapassa a fronteira.

No México, sete em cada dez homicídios são cometidos com armas fabricadas ao norte do Rio Grande ; em algumas ilhas do Caribe, a proporção ultrapassa 90%. O restante sequer aparece nas estatísticas: atravessa a fronteira em pedaços, escondido entre pneus ou eletrodomésticos, e acaba nas mãos de grupos que, da noite para o dia, trocam pistolas antigas por fuzis de assalto.

Esse rio de aço transforma tudo. Facilita a fragmentação — qualquer célula pode se armar —, multiplica o poder de fogo e torna a entrada no crime organizado mais barata: a violência deixa de ser um recurso escasso.

As armas não explicam o fenômeno, mas o aceleram. Aceleram disputas territoriais, divisões internas e o uso da intimidação.

Em grande parte da região, o mercado ilegal de armas é o principal motor que permite até mesmo a pequenos grupos — antes controláveis ​​— atuarem como exércitos locais.

Crime organizado como um sistema

Antes de concluir, é importante abandonar a imagem do crime organizado como um conjunto de organizações com uma história e um fim definidos. Não funciona dessa forma.

O que persiste na América Latina não são os nomes, mas sim a arquitetura.

Organizações surgem e desaparecem, mas a estrutura que lhes dá significado permanece. Elas são um ecossistema, não um organograma.

Por isso, as metáforas de "golpe" ou "desmantelamento" são enganosas. A região presencia a mesma dinâmica repetidamente: os atores se movem, não o palco.

Os mercados ainda existem; as armas continuam chegando; as desigualdades geram novos recrutas; os governos locais permanecem vulneráveis.

O que chamamos de crime organizado é, na realidade, uma forma de organização social que se adapta à oferta e à procura, à política e à geografia, e que sobrevive a todos os seus protagonistas.

Não se trata de um ator a ser derrotado. É um sistema a ser compreendido em toda a sua complexidade. E isso — por mais doloroso que seja — muda completamente a questão e o tipo de respostas que a região precisa.

Carlos Pérez Ricard, jornalista, parao EL PAÍS. Publicado originalmente em 30.11.25

Como a IA virou disciplina obrigatória para alunos no Piauí

Com projeto pioneiro, estado se tornou 1º do país a incluir ensino de inteligência artificial na rede pública. 

Iniciativa, que incentiva alunos a compreender e interagir com tecnologias, foi premiada pela Unesco.

As aulas, ainda segundo o governo do Piauí, estimulam os alunos a pensar "sobre a IA e com a IA"Foto: Divulgação Secretaria de Educação Piauí.

Em um momento em que o uso de aparelhos eletrônicos e telas por jovens vem gerando debates, o Piauí resolveu adotar outra abordagem: o estado se tornou o primeiro de todo o continente americano a incluir o ensino de inteligência artificial (IA) como disciplina obrigatória no currículo do ensino médio e do 9º ano do fundamental.

Implementado no início de 2024, o programa "Piauí Inteligência Artificial" colocou o estado ao lado de países como China, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, nações que vem apostando no ensino de IA. Segundo o governo do Piauí, o projeto alcança, atualmente, mais de 120 mil estudantes da rede pública, resultado da capacitação de aproximadamente 800 professores em 540 unidades escolares.

O programa foi desenvolvido em parceria com o Instituto Federal Farroupilha (IFFar), a Universidade Federal do Pampa (Unipampa), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e o Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), instituições com experiência na formação docente e na elaboração de referenciais curriculares alinhados à Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Segundo Christian Brackmann, professor doutor do IFFar, a ideia de aproximar a inteligência artificial da educação básica surgiu após experiências práticas na formação de professores.

A proposta ganhou força quando a Secretaria de Educação do Piauí decidiu incorporá-la ao currículo escolar. O objetivo, segundo Brackmann, é preparar os estudantes para compreender e interagir criticamente com tecnologias. "O diferencial do Piauí foi ter reconhecido o potencial da proposta e decidido transformá-la em política pública", afirma.

O projeto, que combina fundamentos técnicos e reflexões éticas sobre o uso de IA, ganhou reconhecimento internacional em outubro. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) concedeu ao programa o prêmio Rei Hamad Bin Isa Al-Khalifa para o uso de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) na Educação.

Alunos da rede pública do PiauíAlunos da rede pública do Piauí

A Secretaria de Educação do Piauí diz ter estruturado o conteúdo com base em estudos internacionais e em publicações especializadas.Foto: Divulgação Secretaria de Educação Piauí.

Como o projeto funciona na prática

Mesmo com a aprovação da Norma de Computação na Educação Básica, em vigor desde 2022, a computação – e ainda mais a inteligência artificial – se depara com dificuldades de implementação em muitas escolas brasileiras.

Segundo o secretário de Educação do Piauí, Washington Bandeira, o objetivo é formar jovens preparados para o mercado de trabalho e para compreender de maneira crítica o papel da IA na sociedade atual.

O currículo da nova disciplina, segundo o governo, abrange fundamentos técnicos, como aprendizado de máquina, algoritmos, árvores de decisão e pensamento computacional, discussões sobre ética, impactos sociais e uso responsável das ferramentas digitais.

A Secretaria de Educação diz ter estruturado o conteúdo com base em estudos internacionais e em publicações especializadas.

As aulas, ainda segundo o governo, estimulam os alunos a pensar "sobre a IA e com a IA", combinando atividades práticas e debates sobre suas implicações sociais. De acordo com Bandeira, todas as escolas estaduais já possuem acesso à internet e mais de 90% contam com laboratórios de informática com suporte técnico, o que tem viabilizado a implementação do ensino de IA.

Para Brackmann, a proposta vai além da formação técnica. "O ensino de IA no Piauí busca desenvolver o letramento digital, o pensamento crítico e a compreensão sobre como os sistemas inteligentes funcionam, tomam decisões e impactam a sociedade", explica.

Desafios de implementação

Rosa Maria Vicari, coordenadora da Cátedra Unesco em TIC para América Latina da UFRGS, diz que a formação dos professores aconteceu de forma semipresencial, combinando encontros virtuais simultâneos, metodologias ativas e sala de aula invertida.

"Uma semana antes do encontro síncrono, os estudantes e professores recebem o material de apoio referente ao tema do próximo encontro presencial ou síncrono. O encontro síncrono é utilizado para tirar dúvidas e aprofundar conhecimentos. Sempre oferecemos sugestões de como o assunto pode ser abordado, pelos estudantes-professores, em suas salas de aula, de forma conectada e desconectada. A partir do material e das sugestões, eles adaptam e criam seus próprios conteúdos e planos de aula", explica.

Vicari detalha que a capacitação é organizada em etapas. O primeiro ano visa compreender a IA, seus limites, possibilidades e funcionamento. O segundo ano foca na aplicação prática e o terceiro ano será dedicado a criar projetos voltados à solução de problemas locais.

Ela ressalta que, apesar da existência de infraestrutura, a qualidade da rede de internet em Teresina, por exemplo, difere significativamente do sertão do Piauí, o que exige abordagens de IA desconectada. Nesse caso, os pesquisadores optaram por atividades "desplugadas", sem o uso de artefatos computacionais e totalmente offline. Assim, exploram-se conceitos de lógica, dados, tomada de decisão e outros conteúdos com recursos simples como lápis, papel, borracha, cola, tesoura e demais materiais escolares.

Para Brackmann, do IFFar, outro desafio importante foi lidar com a heterogeneidade do corpo docente, formado por profissionais de áreas distintas, de ciências exatas e biológicas a humanas, linguagens e artes. Muitos professores não tinham experiência prévia com computação. "A familiarização dos professores e de muitos alunos com conceitos de computação e IA foi um obstáculo no início. Para muitos, o mundo dos computadores era inexplorado", afirma.

Ele também destaca a infraestrutura como uma barreira à plena implementação. O acesso a computadores, internet estável e familiaridade com ferramentas digitais nem sempre é uniforme. O engajamento dos professores ao novo formato de ensino, com videoaulas, tutoria online e metodologia de sala invertida também gerou dúvidas e receios no início. Mas, segundo Brackmann, eles foram superados ao longo do curso.

O projeto combina fundamentos técnicos e refllxões éticas sobre o uso de IA, (Foto: Divulgação Secretaria de Educação Piauí.)

Impacto e resultado para os alunos

Segundo Brackmann, testes aplicados nos cinco eixos conceituais que envolvem pensamento computacional, reconhecimento de padrões, raciocínio simbólico, raciocínio estatístico e aprendizado de máquina mostraram avanços significativos entre os professores, com 426 docentes certificados até o fim de 2024 e já atuando nas escolas da rede pública.

Mas o que mais chamou atenção, segundo o pesquisador, são os relatos qualitativos. Para chegar aos resultados, o método incluiu entrevistas, um e-book produzido pelos professores, diários reflexivos, observações de aula e relatos de práticas pedagógicas.

Dessa forma, professores perceberam mudanças no engajamento, curiosidade e autonomia dos estudantes, que passaram a relacionar os conteúdos de IA a temas do cotidiano, como sustentabilidade, redes sociais, fake news e ética digital.

"Ao compreender como a IA funciona, como aprende, com quais dados opera e quais limites possui, os estudantes passam a questionar e refletir sobre o papel da tecnologia em suas vidas e na sociedade", afirma Brackmann.

O secretário Washington Bandeira destaca ainda exemplos práticos da aplicação desses conhecimentos. Segundo ele, alunos já apresentam projetos de IA em feiras e eventos nacionais, utilizando a tecnologia para resolver problemas concretos nas escolas e comunidades.

"A IA é vista também como uma linguagem. Portanto, os estudantes precisam não só utilizar, mas pensar sobre essa tecnologia. Quando bem utilizada, a inteligência artificial pode ser uma aliada importante para que possamos desenvolver essa competência nos nossos estudantes, permitindo aprendizado personalizado e criatividade no desenvolvimento de projetos", afirma Bandeira.

Priscila Carvalho, Jornalista multimídia, é a autora desta matéria. O trabalho da Priscila Carvalho tem foco em turismo, comportamento e mudanças climáticas. Ela já atuou como repórter no UOL, Revista IstoÉ e começou sua carreira na editora Abril. Atualmente, trabalha como correspondente freelancer para agências de notícias internacionais e meios de comunicação no Brasil. Pubicado originalmente no Deutsche Welle Brasil (A Voz da Alemanha), em 30.11.25

A 'pobreza' repentina que faz com que milhões de pessoas nos EUA dependam de ajuda para não passar fome

Ilona Biskup sentiu vergonha na primeira vez em que visitou um banco de alimentos em Miami, no Estado americano da Flórida. 

Ela passou 32 anos trabalhando, pagando impostos e economizando para sua aposentadoria. E conseguiu comprar um apartamento em frente à praia com suas economias.

Ilona Biskup procura produtos gratuitos na despensa do banco de alimentos Feeding South Florida, em Miami (EUA). Crédito: José María Rodero/BBC News Mundo

Agora, ela se pergunta por que precisa de ajuda para ter o que comer.

Há quatro meses, Biskup visitou pela primeira vez o maior banco de alimentos do sul do Estado, o Feeding South Florida. A organização abastece gratuitamente a despensa de 25% dos moradores da região que não conseguem custear suas necessidades alimentares.

Para poder ficar em frente às prateleiras repletas de produtos que ela, talvez, não teria comprado, Biskup precisou pedir ajuda pela primeira vez aos 62 anos, por necessidade.

"Depois de ter tido tanto sucesso, agora dependo de comida grátis", declarou ela, do seu apartamento em Miami Beach, com vista de 180 graus: à direita, a cidade e, à esquerda, o mar.

"Nunca pensei que, depois de trabalhar tanto, acabaria dependendo do governo", lamenta Biskup. Sua pensão por invalidez só cobre os custos de moradia e de serviços.

Biskup recebe US$ 2 mil (cerca de R$ 10,7 mil) da previdência social americana. Este nível de renda a coloca acima da linha da pobreza nos Estados Unidos, hoje em US$ 15,65 mil (R$ 83,5 mil por ano, ou cerca de R$ 7 mil por mês), segundo o Departamento de Saúde e Serviços Humanos do país.

Embora seja dona da sua casa e do seu carro, o valor da pensão não chega para comer.

Este empobrecimento repentino tem sua origem em eventos inesperados que consumiram seu patrimônio. Dois tratamentos contra o câncer esgotaram suas economias e o recente diagnóstico de Parkinson a obriga a recorrer ao dinheiro da aposentadoria.

Vista de Miami Beach, do apartamento de Ilona Biskup (Crédito: José María Rodero/BBC News Mundo)

Problema estrutural

Biskup pertence a um amplo setor da população americana, que enfrenta dificuldades econômicas no seu dia a dia e acaba em situação extremamente vulnerável, quando surge um contratempo financeiro.

Um estudo liderado pelo sociólogo Mark Rank demonstrou que quase 60% dos americanos adultos viverão pelo menos um ano abaixo da linha da pobreza e 75% vivenciarão pobreza ou uma situação parecida.

"Basicamente, existem três caminhos rumo à pobreza nos Estados Unidos: perder o emprego, uma emergência de saúde ou a separação das famílias", explica Rank, que é professor da Faculdade de Trabalho Social da Universidade Washington em San Luis, no Estado americano de Missouri.

"É um problema estrutural, que se deve principalmente a dois fatores: sua rede de previdência social muito fraca, que não consegue impedir que as pessoas caiam na pobreza, e a criação de empregos com baixa remuneração e sem subsídios.

Rank defende que esta combinação transformou os Estados Unidos em um dos países com os mais altos índices de pobreza, entre as nações industrializadas.

O sociólogo Mark Rank afirma que muitos americanos cairão na pobreza em algum momento da sua vida adulta (Crédito: Gentileza de Mark Rank)

Em uma pesquisa do centro de estudos Pew Research Center, publicada em maio deste ano, 27% dos americanos declararam ter enfrentado problemas para pagar pela assistência médica, própria ou de sua família, no último ano.

E pelo menos 20% das pessoas precisaram recorrer a um banco de alimentos no mesmo período.

As pesquisadoras Kim Parker e Luona Lin afirmam que 68% dos adultos afro-americanos e 67% dos adultos hispano-americanos admitem não dispor de fundo de reserva para emergências, da mesma forma que 44% dos adultos brancos.

Outra pesquisa realizada pelo Conselho Nacional para o Envelhecimento (NCOA, na sigla em inglês) e pelo centro de estudos LeadingAge LTSS, da Universidade de Massachusetts em Boston, nos Estados Unidos, revelou que os idosos com menos recursos econômicos morrem, em média, nove anos antes dos que contam com maior patrimônio.

"É alarmante e inaceitável que, nos Estados Unidos, em 2025, a pobreza roube quase uma década de vida dos idosos", declarou o presidente e diretor-executivo do NCOA, Ramsey Alwin.

Rank alerta que o impacto da pobreza se agrava devido aos prejuízos sociais que a rodeiam.

"Nos Estados Unidos, costumamos observar a pobreza do ponto de vista da culpabilização", relata ele.

"Se você for pobre, as pessoas se perguntam: por que não se esforçou o suficiente? O que você fez de errado?"

Na sua opinião, esta perspectiva leva à conclusão de que a pobreza "é problema seu, não meu".

"Em um país tão rico como os Estados Unidos, esta é uma injustiça social e econômica. Mas é uma mentalidade diferente da nossa."

Alguns dos produtos retirados por Ilona Biskup no banco de alimentos.( Crédito: José María Rodero/BBC News Mundo)

'Não consegui me recuperar mentalmente'

Biskup nasceu na Polônia e é cidadã americana.

Ela fez carreira como comissária de bordo nas companhias aéreas Pan Am e Delta Airlines. Biskup preferia trabalhar em voos de mais de 10 horas de duração, para maximizar sua remuneração.

"Eu sempre tratava os passageiros dentro do avião como se estivessem em casa", relembra ela.

Sobre sua mesa da sala de estar, ela abre suas "asas", os distintivos que levam seu nome e que ela costumava inserir na lapela do uniforme, quando prestava serviços aos passageiros.

Biskup se casou com um piloto do Estado americano do Colorado e passou anos rodeada pelas frias montanhas de Denver. Mas, depois do divórcio, sua mudança para perto do mar, em Miami, ofereceu a ela a oportunidade de construir uma nova vida própria.

"Comecei a procurar lugares que pudesse apreciar", afirma ela. "Eu queria simplesmente encontrar um local novo para fechar de alguma forma esta etapa da minha vida."

Em 2014, Biskup foi diagnosticada com câncer de seio. Seu seguro cobriu as cirurgias e tratamentos, mas a nova condição médica desencadeou gastos inesperados.

"Por um ano, fui submetida a quimioterapia e radioterapia. Depois, tive uma cirurgia que durou 12 horas, uma mastectomia dupla com dupla reconstrução", conta ela, uma década depois.

"Eu tinha os melhores médicos e acreditava que ficaria bem, mas, depois da cirurgia, meu cérebro se rendeu e entrou em colapso. Eu diria que, durante um ano e meio, não consegui me recuperar mentalmente."

 Llona Biskup trabalhou como comissária de bordo por 32 anos.  (Crédito: Gentileza de Ilona Biskup)

Em 2019, seu médico detectou o início de um segundo tumor, desta vez no pâncreas. Ela passou por uma cirurgia para retirar as regiões afetadas, conhecida como procedimento de Whipple, que também se prolongou por horas a fio.

"Depois destes eventos, esgotei minhas economias com o câncer", relembra Biskup.

O segundo tumor também foi eliminado, mas ela se sentia fraca demais para trabalhar. E as faturas do seguro e dos gastos cobertos do próprio bolso revelam que ela pagou centenas de milhares de dólares para recuperar sua saúde física e mental.

Em meio aos lockdowns da pandemia de covid-19, Biskup aceitou o pacote de aposentadoria oferecido pela Delta. Mas a decisão a levou a abandonar seu emprego aos 60 anos de idade, quando ainda esperava se manter profissionalmente ativa.

"Sempre tento ver o lado positivo de tudo o que vivencio, mas foi triste que a minha aposentadoria acontecesse desta forma", lamenta ela.

Nos últimos três anos, Biskup mudou sua alimentação e se refugiou no mar. Foi quando sua mão direita começou a tremer. Às vezes, ela estava firme, às vezes ficava lenta.

Inicialmente, ela atribuiu os sintomas às cirurgias para retirar o tecido mamário, mas, há seis meses, seu médico confirmou que o temor e a rigidez são causados pelo mal de Parkinson.

Llona Biskup conserva suas 'asas', os distintivos com seu nome, na época em que era comissária de bordo (Crédito: José María Rodero/BBC News Mundo)

Comer com o SNAPBiskup faz parte dos 42 milhões de americanos que se beneficiam do Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP, na sigla em inglês), o plano de assistência alimentar mais importante dos Estados Unidos, similar ao Bolsa Família no Brasil.

Os beneficiários do SNAP recebem mensalmente, em média, US$ 187 (cerca de R$ 1 mil), mas esta ajuda pode variar segundo as condições do solicitante. Biskup, por exemplo, recebe US$ 225 (cerca de R$ 1,2 mil) por mês.

Para entrar no programa, o governo federal americano exige que a pessoa trabalhe pelo menos 30 horas semanais, a menos que seja estudante, cuide de uma pessoa com incapacidade ou de uma criança com menos de seis anos

O SNAP também inclui pessoas que recebem tratamentos por alcoolismo ou dependência de drogas, ou que têm limitações mentais ou físicas, como no caso de Biskup.

O programa atende um a cada oito cidadãos americanos.

Aviso no supermercado de que são aceitos os cartões do SNAP (Crédito: Getty Images)

Mas, em meio ao recente fechamento do governo federal, que durou 43 dias (o mais longo da história do país), o governo do presidente americano Donald Trump ordenou a suspensão dos pagamentos do SNAP no mês de novembro.

Um juiz do Estado americano de Rhode Island decidiu contra a medida, ordenando que o governo agilizasse os depósitos. Mas a Suprema Corte validou o congelamento do programa por parte de Trump, dias antes da reabertura do governo.

À espera de um novo depósito no seu cartão do SNAP, Biskup visitou a despensa do Feeding South Florida para completar sua alimentação com 10 produtos frescos e 10 embalados ou em lata, que é a quantidade que ela poderia levar.

Ela pegou bananas, tomates, abobrinhas, pepinos e milho, além de arroz, macarrão, sopa, cereais, ervilhas, molhos e biscoitos.

Biskup escaneou as informações nutricionais dos produtos com um aplicativo que avalia a qualidade dos alimentos. Desde que se recuperou do câncer, ela observa com atenção o que come para evitar recaídas de saúde.

"Estou agradecida por receber esta ajuda", declarou ela.

Grupos de voluntários se dedicam a verificar a qualidade dos produtos no banco de alimentos Feeding South Florida (Crédito: José María Rodero/BBC News Mundo).

O banco de alimentos

Ao longo dos seus 25 anos na organização, o presidente do Feeding South Florida, Paco Vélez, presenciou emergências causadas por furacões, crises econômicas e, é claro, a pandemia de coronavírus.

Ele garante que a suspensão do programa SNAP fez disparar a quantidade de pessoas que solicitam produtos gratuitos da despensa do Feeding South Florida.

"As famílias têm medo e não sabem como irão pagar não só pela comida, mas por tudo", afirma Vélez.

Os preços dos alimentos aumentaram em 2,7% nos 12 meses anteriores a setembro deste ano. Os aumentos foram significativamente maiores para produtos como o café (18,9%), carne moída (12,9%) e banana (6,9%).

Este aumento ocorreu em meio a medidas como as tarifas de importação e a perseguição de imigrantes sem documentos que trabalham na agricultura, o que encareceu a produção agrícola de alimentos, explicou o especialista em economia alimentar David Ortega à BBC Verify.

Famílias numerosas de baixa renda, veteranos das Forças Armadas, mães e pais solteiros e pessoas com incapacidade, como Biskup, são alguns dos perfis das pessoas que recorrem ao Feeding South Florida.

"Nos condados do sul da Flórida, mais de 967 mil pessoas dependem deste tipo de ajuda", alerta Vélez.

Paco Vélez, nos armazéns do banco de alimentos Feeding South Florida em Miami (EUA) (Crédito: José María Rodero/BBC News Mundo)

Em meio aos atrasos administrativos no pagamento do SNAP, a afluência de beneficiários se mantém, segundo a chefe de pessoal da organização, Jessica Benites.

"No início deste ano, observamos mais ou menos 40 famílias por dia", ela conta. "No início de outubro, quando fechou o governo, o número duplicou."

Durante a primeira semana de novembro, quando Biskup visitou a despensa, eles receberam em média 120 famílias por dia, segundo Benites.

Os alimentos são doados por produtores agrícolas e supermercados. Em uma parede, ficam os cheques que mostram alguns dos donativos recebidos pela instituição, variando entre US$ 3 mil e US$ 380 mil (cerca de R$ 16 mil a R$ 2 milhões). Eles vêm de empresas distribuidoras de alimentos até fabricantes de automóveis.

O governo federal já retomou suas atividades, mas as pessoas que cuidam do banco de alimentos se preparam para ampliar seus horários, com voluntários que comparecem toda semana para verificar a qualidade dos produtos e organizar os alimentos na despensa.

Cheques das empresas que doam dinheiro ao banco de alimentos Feeding South Florida (Crédito:Valentina Oropeza/BBC News Mundo)

Diversas empresas fazem donativos para abastecer a despensa do Feeding South Florida.

Com os últimos depósitos do SNAP, Biskup fez compras em uma cadeia de atacadistas. Ela comprou produtos em quantidades que normalmente não compraria, se não se sentisse obrigada a maximizar o rendimento da ajuda.

Ela também visita um centro comunitário em Miami Beach, onde almoça de graça depois de praticar Tai Chi ou Qi Gong, que a ajudam a exercitar a serenidade para enfrentar a perda de controle dos movimentos causada pelo mal de Parkinson.

Biskup afirma estar decidida a lutar para manter o nível de vida para o qual sempre trabalhou, embora precise ajustar seus hábitos de consumo e suas rotinas.

"Este apartamento é o meu refúgio, o lugar onde me recuperei de câncer duas vezes e onde espero viver tudo o que o Parkinson irá trazer", declarou ela, da sacada do seu apartamento.

"Farei todo o possível para continuar vivendo perto do mar."

Valentina Oropeza e Cecilia Barría, jornalistas, de  Miami (EUA), para a BBC News Mundo. Pubicado originalmente, em 29.11.25

sábado, 29 de novembro de 2025

Quando Celso de Mello enxovalhou o general Villas Bôas

A hora e vez de Nhô Celso quando Villas Bôas Bem-Bem meteu o bedelho na política. Ministro do STF foi vencido, mas pôs a casta verde-oliva no devido lugar

Bruna Barros/Folhapress

Está quatro a três. O time de ex-presidentes presos (Lula, Temer, Collor, Bolsonaro) vence o escrete dos sem-cela (FHC, Itamar, Dilma) desde a volta das eleições diretas. Ver o sol nascer quadrado é o novo normal.

O anormal é a ida para o xilindró de três quatro-estrelas (Augusto Heleno, Braga Netto, Paulo Sergio Nogueira) e um almirante (Almir Garnier). Os caciques da tribo fardada tinham até então o mesmo estatuto dos yanomamis isolados: eram inimputáveis.

Milicos de alto coturno encarcerados: onde iremos parar? A resposta depende do que ocorre agora, no presente, que por sua vez decorre do passado –do fluxo contínuo de fatos, no mais das vezes caóticos, a que se dá o nome de história.

Para aprender com a história há que se selecionar, no turbilhão dos fatos, os momentos marcantes, aqueles em que as decisões e ações humanas moldam o futuro. Bolsonaro foi protagonista de alguns desses momentos.

Boicotou as vacinas contra a peste e contribuiu para a morte de milhares. Atiçou o lumpesinato contra as eleições. Mandou a Polícia Rodoviária sabotar a votação. Traficou e afanou joias. Articulou o banzé na porta de quartéis e a vandalização da Praça dos Três Poderes. Deu OK ao homicídio de Lula, Alckmin e Xandão. Foi chamado de "seu Jair" pela técnica que examinou a tornozeleira eletrônica que arrebentara.

Ao centro da imagem uma onça pintada está olhando para frente enquanto bebe água agachada na beira de um rio. Atrás dela, manchas verdes de lápis de cor sugerem uma vegetação.

"A história é um pesadelo do qual tento acordar", diz um personagem de James Joyce em "Ulysses". Pois a ascensão do Ogro foi um pesadelo que convém recordar. Há quem situe na revolta de 2013 o início da crise que o arremessou ao Planalto. Ou nos abusos da Lava Jato. Ou na missa negra da derrubada de Dilma, na qual exaltou Ustra, o torturador-mor.

Bolsonaro não se elegeu em 4 de abril de 2018, mas esse foi um dia decisivo da história recente, do pesadelo que assaltou o sono da nação. Duas mulheres e quatro homens deixaram que a milicada metesse o bedelho num assunto que a Constituição manda manterem distância, a política.

Lula foi condenado no caso do duplex no Guarujá, que Sergio Moro julgara ser propina da Odebrecht. Seus advogados pediram-lhe um habeas corpus. Com ele seria possível recorrer da sentença em liberdade. Ou seja, o STF decidiria naquela quarta-feira se enjaulava Lula.

A onça rosnou na véspera. O chefão do Exército, general Eduardo Villas Bôas, soltou um tuíte que rascunhara com o Alto-Comando. Como "todos os cidadãos de bem", os pintores de meio-fio externavam "repúdio à impunidade", diziam-se atentos a suas "missões institucionais". Em português de gente: se Lula ficasse livre, ai dos capas-pretas.

Chegara a hora da onça beber água. A expressão designa um instante tenso e perigoso, o cair da tarde, quando a pintada vai ao rio matar a sede. O pavor se espalha pela mata e a bicharada não dá bobeira na hora da onça beber água.

O STF, pois, tinha de tomar uma decisão prévia à do destino de Lula: afrontar a fera ou ficar na toca. Por seis a cinco, o Supremo se acoelhou diante de Darth Vader. Barroso, Cármen, Fachin, Fux, Moraes e Weber fingiram que Villas Bôas não lhes disparara um tuíte na testa.

Poderiam se abster em sinal de protesto. Abandonar o plenário e explicar por quê. Até votar pela prisão do ex-presidente, mas rechaçar a ingerência dos azeitonas. Eram várias as maneiras de se afirmar o poder civil. As seis togas preferiram se submeter à espada.

"A Hora e Vez de Augusto Matraga" é uma novela de Guimarães Rosa que fala do difícil dia em que um homem tem de decidir quem, à vera, é. Rufião regenerado, Nhô Augusto tem de optar entre silenciar ou combater o bandoleiro mais afamado das Gerais, Joãozinho Bem-Bem, "o arranca-toco, o treme-terra, o come-brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta, o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha".

Celso de Mello, o decano do STF, não tinha nada do Matraga que acariciou a lâmina da faca e o pescoço da carabina ao encarar Joãozinho Bem-Bem. Lhano, olhou a onça no olho, tomou-se de ira santa e lhe disse na fuça que o "pronunciamento" era "de todo inadmissível", típico de um "pretorianismo que cumpre repelir". Lembrou os "dias sombrios" da ditadura e alertou seus pares e o país: as "intervenções castrenses" causam "danos irreversíveis ao sistema democrático".

Como Gilmar Mendes, Lewandowski, Marco Aurélio e Toffoli, Nhô Celso foi vencido. Mas esteve à altura do momento, teve sua hora e vez quando, altivo como Matraga, enxovalhou Villas Bôas Bem-Bem e pôs a casta verde-oliva no devido lugar.

Mário Sérgio Conti, o autor deste artigo, é jornalista. Autor de "Noticias do Planalto", o mais completo livro-reportagem sobre a era-Collor. Publicado originalmente na Folha de S. Paulo, em 28.11.25, edição impressa.

A demência do general

Diagnóstico de Alzheimer poderá dar a Augusto Heleno benefício de prisão domiciliar. Seria desejável criar controles para evitar que pessoas em declínio cognitivo assumam cargos políticos?

O general Augusto Heleno, condenado no processo da trama golpista - Evaristo Sá - 8.fev.24/AFP

Está dando certo. O general Augusto Heleno apareceu com um diagnóstico de Alzheimer, seus advogados pleitearam prisão domiciliar e a PGR concordou. É bem possível que Alexandre de Moraes conceda o benefício humanitário. Ao contrário de Jair, Heleno não fez nada que pudesse ser interpretado como tentativa de fuga.

Sei que muitos desconfiarão do oportuno diagnóstico, mas não me embrenho nessa seara. O que me interessa aqui é a questão da capacidade jurídica. A crer no estratego, ele descobriu ter a doença em 2018 e, no ano seguinte, tornou-se ministro de Estado. Passamos quatro anos sob o tacão de uma alta autoridade que já apresentava síndrome demencial ou ao menos sinais de declínio cognitivo suficientes para procurar um médico.

Como regular isso? Vejam que, na ponta oposta, a dos jovens, não hesitamos em legislar pela média. Brasileiros só se tornam maiores plenamente capazes ao completar 18 anos e, mesmo assim, têm de esperar até os 35 anos para exercer funções que julgamos exigir mais maturidade, como a Presidência.

Deveríamos, então, por paralelismo, criar uma idade máxima para cargos de poder? Já existe a aposentadoria compulsória aos 75 anos para várias carreiras de Estado, mas a justificativa aí é mais abrir espaço para a renovação do que presunção de incapacidade, que quase certamente seria inconstitucional. Outra possibilidade seria submeter a testes cognitivos candidatos a postos eletivos e a cargos de livre nomeação. Já exigimos exame médico de quem quer renovar a CNH.

Eu não iria por esse caminho. Se é lícito avaliar a cognição, por que não testar também a personalidade? Isso poderia nos livrar de tipos tóxicos, mas também daria a um ramo da medicina o desproporcional poder de decidir quem pode ou não ser candidato.

Democracia é um contrato de risco. Se um psicopata decrépito convence a maioria da população de que é o mais indicado para comandá-la, pior para a população. Inelegibilidades precisam ter como base delitos cometidos, não riscos imaginados.

Hélio Schwartsman, o autor deste artigo, é jornalsta. Foi editor de opinião da Folha de S. Paulo. É autor de "Pensando Bem..." Publicado originalmente na Folha de S.Paulo, em 28.11.25 (edição impressa).

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Festival de mediocridades

Às vésperas do novo ciclo eleitoral, Brasília encena uma rinha institucional entre Legislativo e Executivo que nada tem a ver com o interesse público, e sim com a satisfação de ambições pessoais

A cerca de um ano das eleições gerais, Brasília encena uma deprimente rinha institucional. Enquanto o País enfrenta problemas reais que exigem cooperação total entre os Poderes, Congresso e Palácio do Planalto decidiram fazer das lides políticas, de resto legítimas, um duelo por interesses mesquinhos. Ainda que performático, o alardeado “rompimento” dos presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não se pauta pela discussão de qualquer tópico de uma agenda virtuosa para o Brasil. O que há é uma guerrilha miúda entre autoridades que sobrepõem suas ambições privadas ao interesse público.

Para começo de conversa, Lula fomentou o conflito que agora ameaça paralisar seu governo. Neste terceiro mandato, o presidente claramente abdicou da articulação com os parlamentares e a colocou nas mãos de amadores. O resultado aí está. Não se trata de inabilidade política, algo de que o petista jamais poderá ser acusado, mas de um projeto consciente de deslocar a política para fora de seu locus apropriado, o Congresso. Lula escolheu “governar”, por assim dizer, com o Supremo Tribunal Federal (STF), como se o eventual apoio da Corte a questões caras ao Executivo tivesse o condão de suplantar o diálogo com deputados e senadores.

A cada derrota política, o governo recorre ao STF para tentar reverter decisões tomadas legitimamente pelos representantes eleitos. Para piorar, ainda apela às redes sociais para atacar o Parlamento. A hashtag #CongressoInimigoDoPovo, amplificada por alguns dos governistas mais estridentes nas redes, como os deputados Lindbergh Farias e Erika Hilton, além do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, não apenas degradou o ambiente de cooperação institucional, como alimentou uma retórica tão simplista quanto falaciosa segundo a qual oposição a Lula significa sabotagem contra os pobres.

O Congresso, porém, está longe de ser vítima. A súbita “ruptura” de Motta e Alcolumbre com o governo não se escora na defesa de prerrogativas constitucionais nem de princípios republicanos, mas na ampliação dos mecanismos de poder engendrados pelo Legislativo nos últimos anos, particularmente o controle sobre as verbas discricionárias do Orçamento. Ao fim e ao cabo, é do manejo de recursos públicos sem controle que se trata quando os presidentes das Casas Legislativas afetam indignação contra o governo, visto como parceiro do STF no combate ao orçamento secreto.

A coroar essa atitude indigna das altas posições que ambos ocupam na República, Motta e Alcolumbre decidiram faltar à cerimônia de sanção da lei de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais – uma medida amplamente aprovada pelo Congresso e que de resto beneficia a esmagadora maioria dos trabalhadores brasileiros. Pura picuinha. Pura politicagem rasteira.

A postura de Alcolumbre, em particular, sintetiza esse ambiente beligerante no qual o interesse nacional não chega a ser nem sequer uma miragem. Seu rompante ao declarar que será um “novo Davi”, após Lula frustrar sua expectativa de indicar um ministro para o STF, escancarou o problema: o Senado, que deveria ser o fiador da estabilidade institucional, foi transformado por seu presidente em um balcão de barganhas pessoais. A indicação de Jorge Messias para o STF contrariou interesses internos da Casa. Mas, em vez de lidar com a questão nos termos da Constituição, Alcolumbre destila ressentimento e distribui ameaças por não exercer uma prerrogativa que jamais foi sua.

Hugo Motta, por sua vez, tenta demonstrar força explorando o conflito, amparado por lideranças que tratam a Câmara como instrumento de chantagem: ora travam pautas do Executivo para pressionar a liberação de emendas, ora agitam o espectro de derrota política, como no caso da anistia aos golpistas, para extrair novas vantagens. Nada disso constrói políticas públicas duradouras e aptas a melhorar a vida dos brasileiros.

E assim assistimos a um festival de mediocridades. O resultado é um país à deriva, sem projetos estruturantes, sem reformas e sem um líder digno do nome e à altura destes tempos desafiadores.

Editorial \ Notas e Informações, O Estado de S. Paulo, em 28.11.25

Após trama golpista, STF se prepara para julgar primeiros deputados do orçamento secreto

Caso de deputados do PL, o primeiro entre mais de 80 investigações sobre emendas, teve instrução encerrada e Zanin já pediu marcação do julgamento; acusados negam irregularidades; análise de desvios por parlamentares deve abrir nova frente de tensão da Corte com o Congresso em ano eleitoral

Mais de 80 investigações envolvendo deputados e senadores tramitam no STF, a maior parte sob relatoria do ministro Flávio Dino (Foto: VINICIUS LOURES AGENCIA CAMARA)

Após concluir a fase decisiva da trama golpista, que levou à prisão de Jair Bolsonaro, o Supremo Tribunal Federal (STF) entra agora na etapa mais sensível da crise das emendas parlamentares e se prepara para julgar o primeiro caso de desvio envolvendo congressistas, uma investigação aberta durante a apuração do chamado orçamento secreto, revelado pelo Estadão. O desdobramento ocorre a menos de um ano das eleições de 2026 e inaugura uma nova frente de tensão com o Congresso Nacional.

O processo, sob relatoria de Cristiano Zanin, mira os deputados Josimar Maranhãozinho (PL-MA), Pastor Gil (PL-MA) e o suplente de deputado Bosco Costa (PL-SE). A Procuradoria-Geral da República (PGR) acusa o grupo de cobrar propina para liberar pouco mais de R$ 6 milhões em emendas de saúde destinadas a São José de Ribamar, Maranhão. O caso veio à tona após denúncia do então prefeito da cidade, José Eudes Sampaio, em 2021, que relatou ter sido alvo de cobranças de propina pelo grupo. Os nomes dos três deputados foram antecipados em outubro do ano passado pelo Estadão.

Nesta quarta-feira, 26, as defesas apresentaram alegações finais, etapa em que os réus fazem suas últimas manifestações antes do julgamento. A fase ocorre após a PGR pedir, em novembro, a condenação dos três parlamentares por corrupção passiva e organização criminosa. Na sequência, Zanin abriu prazo de 5 dias úteis para que os demais réus que não apresentaram suas alegações finais o façam e, paralelamente, já solicitou ao presidente da Primeira Turma, Flávio Dino, datas para pautar o julgamento da ação penal.

De acordo com a PGR, mensagens obtidas pela Polícia Federal durante a investigação mostram que o grupo exigia parte dos repasses de prefeituras em troca da indicação das verbas por meio de emendas, numa espécie de “rachadinha” operacionalizada por contratos com empresas de fachada.

Na peça acusatória, a PGR afirmou que a destinação dos recursos ocorreu entre dezembro de 2019 e abril de 2020, durante o período do chamado orçamento secreto, mecanismo de baixa transparência que mantinha em sigilo o nome do parlamentar responsável pela indicação e que acabou declarado inconstitucional pelo Supremo em 2022.

Nas alegações finais, porém, as defesas dos parlamentares afirmam que não há provas de que as verbas investigadas tenham origem em emendas e sustentam que os repasses questionados foram feitos por decisão do Ministério da Saúde, sem participação dos acusados.

Os advogados dizem ainda que os diálogos citados pela PGR tratam de articulações políticas locais, não de cobranças ilícitas, e que o então prefeito José Eudes negou ter recebido pedidos de propina em nome dos deputados. As defesas também apontam falhas na investigação, como o “acesso tardio às mensagens” usadas na denúncia, e pedem absolvição por falta de provas.

Este será o primeiro processo sobre supostos desvios de emendas envolvendo parlamentares a chegar à fase de julgamento no STF, em um total de mais de 80 investigações que envolvem deputados e senadores e que tramitam na Corte, a maior parte sob relatoria do ministro Flávio Dino.

O avanço dessas apurações ocorre em meio a um novo desgaste entre o Congresso e o Supremo, após a prisão definitiva de Bolsonaro e de outros seis réus no caso da trama golpista, que reacendeu críticas de deputados e senadores da oposição ao ministro Alexandre de Moraes, relator do processo.

Como mostrou o Estadão, avançam no Congresso diversos projetos que buscam reduzir o poder dos ministros do STF, de propostas que restringem decisões individuais a textos que autorizam o Parlamento a anular julgamentos da Corte e criam um novo rito para processos de impeachment de ministros.

Em outra frente, a oposição, capitaneada pela família Bolsonaro, busca formar maioria no Senado em 2026. A eleição para a Casa é tratada como decisiva pelo ex-presidente, já que uma maioria bolsonarista daria ao grupo força para pressionar o Supremo com pedidos de impeachment de ministros. O Senado é o órgão responsável por processar e julgar esses pedidos, exercendo a prerrogativa constitucional de funcionar como instância de controle sobre o STF.

Bolsonaro já disse em público que, se tiver mais de 50% de cadeiras no Congresso, vai “mandar mais que o presidente da República”, ainda que ele esteja fora do jogo.

Para o professor do Insper Leandro Consentino, o início das investigações contra parlamentares relacionadas às emendas tende a tensionar ainda mais a relação entre os dois Poderes, especialmente a um ano das eleições.

Ele avalia que essas apurações atingem diretamente o centro da dinâmica política atual, que gira em torno do controle das verbas parlamentares, e colocam deputados e senadores sob risco real de responsabilização criminal. “Há ainda a percepção, entre parte da classe política, de que existe um ‘jogo casado’ entre o STF e o governo nesses casos”, afirma.

Segundo Consentino, esse cenário incentiva o Legislativo a reagir de forma corporativa e a intensificar a pressão sobre o Supremo, ampliando o clima de confronto institucional às vésperas de 2026. “A tensão com o STF tende a aumentar porque essas investigações ocorrerão em ano eleitoral. Mais uma página de tensionamento entre os dois Poderes pode começar”, diz.

Hugo Henud, originalmente, para O Estado de S. Paulo. Publicado em 28.11.25

Brasil vive apropriação continuada de poder, com empecilho para negros na política, diz ativista

José Adão de Oliveira defende bancas de heteroidentificação para barrar fraudadores de cotas. Cofundador do MNU afirma que proporcionalidade de negros é essencial para democracia

José Adão de Oliveira, cofundador do MNU (Movimento Negro Unificado), nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo, onde foi realizada, em 1978, a primeira manifestação do movimento - Rafaela Araújo /Folhapress

Para o cofundador do MNU (Movimento Negro Unificado) José Adão de Oliveira, 70, o Brasil vive, desde a distribuição de capitanias hereditárias em tempos coloniais, uma história marcada pela apropriação de poder por uma minoria.

Segundo ele, essa minoria cria empecilhos para que a população negra alcance espaços de decisão ao tentar minar as políticas de cotas vigentes no país, seja a partir da anistia aos partidos que não cumprem a legislação seja por meio da fraude na identificação racial.

Cotas para negros em espaços de poder são uma demanda de décadas da população negra, incluindo o MNU, surgido em 1978 para lutar contra a discriminação racial em plena ditadura militar (1964-1985).

Atualmente conselheiro do movimento, José Adão fala sobre a política racial do terceiro governo Lula (PT), que ele considera ser prejudicada pela necessidade de negociação com grupos conservadores, defende bancas de heteroidentificação para combater fraudes de candidatos autodeclarados negros nas eleições e traça considerações sobre a criação de um partido negro no Brasil.

Como avalia a inserção de negros na política?

Muita gente que era lida como branca e nunc a se autodeclarou negra, de repente, começou a se declarar. Houve um crescimento exponencial de autodeclaração visando se apropriar da verba pública. Parlamentares de esquerda votaram com a direita pela não aplicação da lei [de cotas nas eleições]. Isso impede que as instâncias de poder expressem democraticamente o percentual de negros e mulheres na população.

Essa proporcionalidade tinha que estar em todas as cadeiras do Parlamento, para cumprir o conceito de democracia. Nem democracia representativa nós temos. Temos uma apropriação continuada do poder pelas famílias das capitanias hereditárias da colonização, que permanece inalterada até hoje. Melhorou um pouquinho, mas, em essência, são essas as estruturas que continuam usufruindo do trabalho suado da maioria da população.

Como seria possível resolver a autodeclaração potencialmente incorreta?

A banca de heteroidentificação é parte da evolução da política pública. Ela tem que estar em todos os processos. Também é necessário ter uma formação pública e ética dos servidores em todas as instâncias.

A falta de ética está no princípio. Se a pessoa não tem ética para ocupar aquele espaço, ela não deve ocupá-lo, para o bem-estar da sociedade.

Homem negro com cabelo grisalho e óculos segura corrimão de escada em frente a edifício histórico com colunas e porta de ferro ornamentada

José Adão de Oliveira volta a local de apresentação do MNU, no centro de São Paulo, 47 anos depois de lançado o movimento pelos direitos da população negra - Rafaela Araújo /Folhapress

Considerando esses aspectos, qual é o saldo da política de cotas raciais nas eleições?

A política em si é exitosa, porque conseguiu ser implantada. Agora, dado o atraso em que ainda vivemos —estamos na semirrepública, no semicolonialismo—, há ainda muita rejeição. Essa rejeição não vai desqualificar a política [de cotas]. São as pessoas que não estão à altura da política, que estão atrasadas no tempo.

Existe algum nome forte de candidato negro para concorrer à Presidência em 2026? Como avalia o cenário?

Não existe. Essa não existência é fruto dessa política que deu razão ao surgimento do MNU. É preciso haver um processo de construção da cidadania em relação a educação, saúde, moradia, participação social e respeito. Tudo isso faz um conjunto formativo de cidadania, participação social e reconhecimento de pessoas que geram confiança para a delegação de tarefas.

Se as pessoas não conseguem chegar a cargos de gerência, não há referência para a pessoa de baixo que está olhando para cima. Se não há referência, não tem como delegar. Como votar no que não existe?

É por isso que não temos uma candidatura forte para governador, prefeito ou presidente. Eu poderia citar a Benedita da Silva [deputada federal pelo PT do Rio de Janeiro], que é o nome mais famoso que temos, mas ela não chega a ter uma densidade eleitoral de, no mínimo, 20%. [Tem a ver com] esse histórico de invisibilidade e de crimes continuados contra a população negra.

Qual tem sido o saldo do governo Lula 3 em relação a políticas públicas para a população negra?

Poderia ser bem melhor, mas é a expressão dessa articulação política que foi feita, na qual se tem que negociar com a maioria conservadora. Pautas progressistas não avançam muito, mas tivemos avanços na política de saúde para a população negra.

No MEC [Ministério da Educação], os avanços estão no investimento no ensino médio e no Pé de Meia [programa do governo federal que dá incentivo financeiro a estudantes]. Há também uma política de apoio a cursinhos populares, o que é muito importante, porque o pessoal dos cursinhos e da EJA [Educação de Jovens e Adultos] são cidadãos que não tiveram o seu direito à educação respeitado desde pequenos.

E no Judiciário, como avalia a absorção de negros neste Poder e a pressão de movimentos sociais por uma mulher negra no STF (Supremo Tribunal Federal)?

São a continuidade e o aperfeiçoamento da política de cotas que vão propiciar mais acesso ao Judiciário. Sobre a pressão por uma mulher negra no STF, é totalmente justa e necessária. O Supremo sem a Cármen Lúcia, com ela se aposentando, vai ficar como? Um Judiciário de homens brancos.

É mais que necessário ter mais pessoas negras e mulheres participando. É um fator de justiça, na verdade. Sem muitas delongas, é simplesmente fazer justiça. Se o Judiciário não faz justiça consigo mesmo, como é que pode dar exemplo para a sociedade?

No ano de sua fundação, em 1978, o MNU lançou texto no qual tratou da falta de representação da população negra "nos meios de decisão, o que consequentemente nos impede de levar as nossas reivindicações às mais altas esferas políticas". No texto, o movimento se diz consciente de estar "numa fase embrionária de organização", daí a impossibilidade de ter lançado, na época, candidatos próprios. Desde então, pensaram em fundar um partido?

Não posso falar pela totalidade do MNU, mas nunca debatemos em nenhum congresso nosso a possibilidade de o MNU ser um partido. O que nós colocamos, desde 1993, é a construção de um projeto político a partir da perspectiva da população negra, do povo negro para o Brasil, para o conjunto, e não de a gente ser um partido político.

Na nossa história, não lançamos candidatos próprios porque não somos partido político. Mas pessoas filiadas ao MNU foram candidatas, dentre elas o Abdias Nascimento. Atualmente temos várias candidatas, como Simone Nascimento (PSOL), codeputada estadual em São Paulo e coordenadora do MNU.

Como o MNU avalia a possibilidade da criação de um partido negro no Brasil? Existem iniciativas nesse sentido.

É um direito. Mas eu acho que o MNU não se constituiria nessa alternativa. O MNU tem uma carta de princípio, tem um programa em execução. A gente quer ver as pessoas negras ocupando os vários espaços que estão aí.

O Republicanos, do governador Tarcísio [de São Paulo], por exemplo. Quantos secretários estaduais são negros e negras no governo Tarcísio? No partido do Tarcísio? E nos demais partidos?

A evolução seria ter a ocupação equitativa em todos os partidos, cumprindo a lei existente de cotas. Criar um partido negro é um direito, mas não vejo como a solução. É uma das soluções, mas não a mais adequada.

O MNU se define como apartidário, mas alinhado à esquerda. Como o movimento encara negros de direita?

É igual o branco de direita. Não tem distinção. A questão de direita e da esquerda surgiu na Revolução Francesa. De quando é Zumbi dos Palmares? De quando é Ganga Zumba? Muito, mas muito antes disso. Quando Pero Vaz de Caminha veio para cá e classificou os indígenas como pardos, essa divisão já veio. A nossa questão [racial] vem antes [de esquerda e direita].

RAIO-X | José Adão de Oliveira, 70

Cofundador e integrante do Conselho dos Griots do MNU (Movimento Negro Unificado). É educador social, escritor, coautor do livro "Movimento Negro Unificado: a resistência nas ruas" (Edições Sesc São Paulo e Fundação Perseu Abramo, 2019) e coordenador do "I Livro GRIOT do MNU: memórias de vida e luta da Idosidade Negra" (Sabedoria Griot, 2024).

Ana Gabriela Oliveira Lima, originalmente para a Folha de S. Paulo, em 17.11.25 (edição impressa)

Novo estudo aponta idade surpreendente para o fim da adolescência

Pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, revelam que cérebro passa por cinco épocas principais ao longo da vida. Trabalho revela "momentos-chave" da existência humana

As grandes mudanças cerebrais acontecem entre os 9 e os 83 anos -  (crédito: Freepik)

Cientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, descobriram que a estrutura cerebral humana passa por cinco "grandes épocas" ao longo dos anos. As mudanças ocorrem à medida que o cérebro se reconfigura para suportar diferentes formas de pensar enquanto crescemos, amadurecemos e envelhecemos. O estudo publicado na revista Nature Communications sugere ainda que a adolescência termina, na verdade, aos 32 anos.

Para o trabalho, a equipe comparou os cérebros de 3.802 pessoas até 90 anos. Os cientistas usaram dados de exames de ressonância magnética de difusão, que mapeiam as conexões neurais rastreando como as moléculas de água se movem pelo tecido. 

A "topologia" do cérebro infantil se desenvolve desde o nascimento até um ponto de virada aos 9 anos, quando entra na fase da adolescência; esse período, por sua vez, dura, em média, até os 32, quando a estrutura neural começa a se transformar, entrando no modo adulto. Um terceiro ponto de inflexão, por volta dos 66 anos, marca o início do "envelhecimento precoce" da arquitetura cerebral. Já o "envelhecimento tardio" se consolida aos 83 anos.

Vulnerabilidade

Segundo Alexa Mousley, bolsista da Fundação Gates em Cambridge, e coautora da pesquisa, as eras fornecem um contexto importante para entender no que os cérebros podem ser mais eficazes ou mais vulneráveis em diferentes fases da vida. "Isso pode nos ajudar a compreender por que alguns cérebros se desenvolvem de maneira diferente em momentos-chave da vida, sejam dificuldades de aprendizagem na infância ou demência na terceira idade."

Conforme a publicação, desde a infância até a adolescência, o cérebro é definido pela "consolidação da rede", à medida que a abundância de sinapses produzidas em excesso no bebê é reduzida, restando apenas as mais ativas. Em todo o órgão, as conexões se reorganizam seguindo o mesmo padrão do nascimento até aproximadamente os 9 anos.


Por volta dos 9 anos, no primeiro ponto de virada, o cérebro passa por uma mudança radical na capacidade cognitiva e por um risco maior de transtornos de saúde mental. Na segunda fase, a adolescência, a substância branca continua aumentando em volume, de modo que a organização das redes de comunicação se torna cada vez mais refinada.

A adolescência é definida pela eficiência das conexões, tanto dentro de regiões específicas quanto pela comunicação rápida em todo o cérebro, o que está relacionado a um melhor desempenho cognitivo. "Como você pode imaginar, a eficiência neural está bem conectada por caminhos curtos, e a adolescência é a única fase em que essa eficiência está aumentando", destacou Mousley.

Aos 32 anos acontece o que os pesquisadores definem como o "ponto de virada topológico mais forte" de toda a vida. "Por volta dessa idade, observamos as mudanças mais significativas na direção das conexões neurais e a maior alteração geral na trajetória, em comparação com todos os outros pontos de inflexão",  sublinhou Mousley.

É então que começa a fase mais longa, a adulta. A arquitetura cerebral se estabiliza em comparação com os períodos anteriores, sem grandes pontos de virada durante 30 anos. Isso corresponde a um "platô na inteligência e na personalidade", com base em outros estudos, afirmaram os pesquisadores.

Em cada época

Thiago Taya, neurologista e neuroimunologista do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, as fases de desenvolvimento e envelhecimento do cérebro e a própria história de vida são fractais. "Na infância fazemos associações entre tudo, absorvemos uma quantidade absurda de informações em pouco tempo, mas sem organização e sem coerência objetiva, na adolescência os nossos conhecimentos começam a se consolidar, começamos a ter um perfil de personalidade mais bem definido, às vezes até demais por ainda existir um excesso de conexões neuronais."

Taya avalia ainda que na vida adulta já temos conhecimento basal do mundo e da realidade como um todo, assim como maior maturidade emocional e comportamental. "Na terceira idade, começamos a reduzir lentamente a nossa capacidade cognitiva, ficamos mais enrijecidos do ponto de vista cognitivo e de comportamento, e tudo isso refletindo de maneira direta as fases de desenvolvimento e envelhecimento cerebral."

A nova virada que acontece aos 66 anos é muito mais suave e não é definida por grandes mudanças estruturais, embora os pesquisadores ainda tenham encontrado alterações significativas no cérebro, em média, por volta dessa idade. "Esta é uma idade em que as pessoas enfrentam um risco maior de desenvolver uma variedade de problemas de saúde que podem afetar o cérebro, como a hipertensão", afirmaram os pesquisadores no estudo.

O último ponto de virada acontece por volta dos 83 anos. Embora os dados sejam limitados, a característica definidora segundo os estudiosos é uma mudança "do global para o local", à medida que a conectividade de todo o cérebro diminui ainda mais, com maior dependência de certas regiões. 

"Estações do ano"

Para Marcos Alexandre Carvalho Alves, coordenador da neurologia do hospital Mater Dei Goiânia e especialista em doença de Parkinson, as descobertas têm grande impacto. "Pensávamos que o cérebro se desenvolvia de forma contínua, como uma linha reta. Agora vemos que ele passa por fases bem definidas, como estações do ano. Saber que existem momentos específicos de reorganização nos ajuda a entender quando o órgão está mais preparado para aprender e quando está mais frágil. Isso explica por que certas doenças mentais aparecem em idades específicas. Elas estão ligadas a esses pontos de virada."

"Olhando para trás, muitos de nós sentimos que nossas vidas foram caracterizadas por diferentes fases. Acontece que o cérebro também passa por essas eras", acrescentou o autor sênior, Duncan Astle, professor de neuroinformática em Cambridge. "Muitas condições neurodesenvolvimentais, de saúde mental e neurológicas estão ligadas à forma como o cérebro está conectado. De fato, diferenças na conectividade cerebral predizem dificuldades com atenção, linguagem, memória e uma série de outros comportamentos", completou. 

É bem interessante mostrar que é possível segregar, de fato, como é a conectividade do cérebro em diferentes pontos da vida da pessoa. Mas se isso tem relação com alguma coisa que já é programada, que é esperada, ou se é produto de interações com doenças e com o meio ambiente, é difícil de determinar. Mas esse é um ponto de partida para futuros estudos compararem, por exemplo, pessoas que têm uma doença mental, que se desenvolveu na juventude, e comparar com aqueles que não desenvolveram essa condição. Talvez consigam identificar essa mudança antes de acontecer o adoecimento, por exemplo. Ou então comparar se indivíduos que têm trajetórias diferentes por volta dos 66 anos vão evoluir com demência ou não. Isso são cenas dos próximos capítulos.

Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, da Rede Américas

Postado originalmente por Isabella Almeida no Suplemento Ciência e Saúde, do Correio Braziliense, em 26.11.25

PL suspende salário de Bolsonaro; veja quanto recebia o ex-presidente

Partido cita a suspensão dos direitos políticos como motivo para o interrompimento das atividades partidárias e remuneração de Bolsonaro

Somando todas as remunerações que recebia até o mês passado, a renda mensal de Bolsonaro chega a R$ 100 mil  -  (crédito: Evaristo Sá/AFP)

O Partido Liberal (PL) anunciou nesta quinta-feira (27/11) a suspensão do salário e das atividades partidárias de Jair Bolsonaro. Em comunicado, o partido informa que o motivo da decisão é a suspensão dos direitos políticos do ex-presidente, preso por tentativa de golpe de Estado.

“Infelizmente, por decorrência da lei (Lei 9096/95 – REspEl n° 060026764; AGR-RO 060023248) e em razão da suspensão dos direitos políticos do nosso Presidente de Honra, Jair Bolsonaro, as respectivas atividades partidárias de nosso líder estarão igualmente suspensas, inclusive a sua remuneração, enquanto perdurarem os efeitos do acórdão condenatório na AP 2668”, diz o informe.

O ex-presidente, preso no fim de semana, se filiou ao PL em novembro de 2021. Antes disso, ele foi eleito presidente pelo antigo PSL (atual União Brasil) e saiu, em 2019, para tentar criar o partido Aliança Brasil. A tentativa, no entanto, nunca se concretizou.

Quanto recebe Jair Bolsonaro?

De acordo com o Portal da Transparência, o ex-presidente recebe, como capitão reformado do Exército, a remuneração bruta de R$ 12.861, 61. 

Deputado aposentado, Jair Bolsonaro também recebe R$ 41.563,98 da Câmara dos Deputados, em valores brutos.

Publicado originalmente pelo Correio Braziliense, em 28.11.25

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Segundo o G1, antes de ter os direitos políticos suspensos, Bolsonaro recebia um salário de R$ 46 mil do Partido Liberal. 


Somadas, as quantias resultam em uma remuneração mensal de R$ 100 mil

'Se pensar só em proteína e carboidrato, o pão vira inimigo'

Há 25 anos, a chef de cozinha Rita Lobo lançava o site Panelinha com um intuito simples: ensinar qualquer pessoa a cozinhar em casa para ter uma alimentação mais saudável baseada em comida de verdade.

Rita Lobo durante entrevista

A ideia era ajudar o público, de forma simples e democrática, a evitar os chamados ultraprocessados, alimentos feitos majoritariamente com ingredientes industriais, aditivos químicos e poucos itens in natura.

A missão se provou cada vez mais relevante: os alimentos ultraprocessados já respondem por cerca de 20% das calorias diárias ingeridas pela população brasileira, segundo um estudo pesquisa da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.

No mundo, os dados são ainda mais alarmantes: em alguns países de alta renda, como o Reino Unido, os alimentos ultraprocessados já respondem por mais de 50% das calorias consumidas, segundo estudo da revista Lancet.

Neste mês de novembro, a mesma publicação científica lançou uma série especial focada nos efeitos dos alimentos ultraprocessados sobre a saúde humana.

O conjunto reúne três artigos assinados por 43 pesquisadores de diferentes países e pede adoção de políticas públicas que combatam o avanço dos ultraprocessados.

A chef brasileira foi uma das convidadas para o lançamento presencial, em Londres, e conversou com a BBC News Brasil sobre a responsabilidade da indústria, o papel das políticas públicas e o desafio de tornar a comida de verdade acessível em um mundo cada vez mais dominado por produtos ultraprocessados.

Confira a entrevista abaixo.

Rita Lobo: 'Se pensar só em proteína e carboidrato, o pão vira inimigo'

BBC News Brasil  - Se precisasse traduzir o que essa série traz para um público leigo, como faria?

Rita Lobo - Eu diria assim: "Leia a lista de ingredientes do rótulo. Se tiver nomes de coisas que você não tem na sua cozinha, deixe no supermercado".

O que a revista está dizendo é que esses produtos que parecem comida, têm cheiro de comida, têm sabor de comida, na verdade, são formulações industriais que o corpo não entende mais como comida.

E, em função disso, o consumo desses produtos, que tira da mesa a comida de verdade, está adoecendo as populações.

Os índices de obesidade no mundo só crescem, e com eles crescem as doenças crônicas não transmissíveis, como doenças coronárias, diabetes, alguns tipos de câncer e até problemas ligados à saúde mental.

O que a Lancet está dizendo é que não basta só os indivíduos fazerem escolhas melhores. São necessárias políticas públicas que levem comida de verdade às pessoas e que dificultem o acesso e o consumo dos ultraprocessados.

BBC News Brasil - Como reconhecer um ultraprocessado?

Rita Lobo - O principal é a lista de ingredientes. Mas também existe uma lógica: é um produto pronto para comer, que você não precisa cozinhar?

E é importante saber o que é comida de verdade, que é aquela feita a partir de alimentos in natura ou minimamente processados. Não é só o que você compra na feira. Quando você compra um pacote de feijão, ali dentro tem feijão. Não é "feijão sabor feijão".

Um iogurte natural, por exemplo, não é ultraprocessado, porque só tem leite e fermento. Não tem adição de açúcar, adoçante, corante, saborizante ou emulsificante. É basicamente leite e fermento.

A comida de verdade é feita por mãos humanas, não é feita na fábrica, e ela leva em conta um padrão alimentar tradicional.

No Brasil, é o arroz com feijão, os legumes, as verduras, a farofinha. O problema não é a batata frita — o problema é a batata frita ultraprocessada, aquelas congeladas, cheias de amidos modificados e aditivos.

BBC News Brasil - E o que mantém as pessoas mais longe hoje de cozinhar?

Rita Lobo - Essa é uma pergunta complexa. Durante muito tempo, até os anos 90 no Brasil, as pessoas comiam mais comida de verdade. Em países como Estados Unidos e Inglaterra, isso foi até as décadas de 60 ou 70.

As mulheres não trabalhavam fora. Quando elas foram para o mercado de trabalho — o que foi essencial — os homens não ocuparam esse lugar na cozinha. E a cozinha virou uma espécie de terra de ninguém.

A indústria que antes ajudava a conservar alimentos passou a perceber que era muito mais lucrativo oferecer comida pronta, com uma validade enorme e com ingredientes cada vez mais baratos, cheios de aditivos que fazem o produto parecer comida.

Hoje, são bilhões de dólares em marketing dizendo, desde que a criança nasce, que aquelas misturinhas industriais são melhores que a comida de verdade.

E trago outro ponto: você disse que comeu ovos mexidos hoje no café da manhã. Muita gente escolhe essa refeição por ser uma fonte de proteína.

E a maioria das pessoas não diz "eu comi ovos", diz "eu comi minha proteína". "Estou evitando carboidrato simples."

Esse jeito de falar muda tudo. Quando o que você "precisa" é proteína, tanto faz se vem do ovo ou do whey. Tanto faz se você vai comer frango ou um iogurte proteico. Até o jeito de falar sobre comida é moldado por essa indústria.

A gente passa a chamar os alimentos pelo nutriente que eles entregam. E, a partir daí, tanto faz estar escolhendo comida de verdade ou um produto. Porque o foco vira o nutriente — e você começa a perder a capacidade de diferenciar o que é comida e o que não é.

BBC News Brasil - Essa onda desumaniza o jeito que a gente vê a comida?

Rita Lobo - Totalmente. Isso tem nome na nutrição: reducionismo nutricional. Quando você passa a escolher a comida só pelo nutriente que ela vai te entregar, você perde a referência do que é comida de verdade.

Até o jeito de falar muda. Em vez de "vou beber água", a pessoa diz "preciso me hidratar". E aí alguém aparece dizendo que tem algo "melhor que água", como um isotônico. E você cai nessa armadilha.

'Quanto menos a gente comer comida de verdade, mais baratos vão ficar os ultraprocessados e mais caras vão ficar as opções realmente saudáveis', diz Rita Lobo à BBC News Brasil (Crédito,Getty Images)

BBC News Brasil - Algum ultraprocessado entra na sua casa?

Rita Lobo - Quando você vira a chave, você percebe que não precisa de ultraprocessados. Pelo contrário: hoje, se alguém me oferece um "chocolate" que já nem é mais chocolate — esses confeitos com sabor de chocolate dos produtos comerciais —, para o meu paladar é doce demais, artificial demais. Não é algo que eu ache gostoso, nem algo que eu queira comer.

E eu sei, por experiência própria, que é possível ter uma alimentação baseada em comida de verdade. Mas tem duas coisas essenciais.

A primeira: não existe querer ter uma alimentação saudável e não saber cozinhar.

A segunda coisa é o planejamento. Se você decide o que vai comer só na hora da fome, você vai fazer piores escolhas.

As nossas avós já faziam isso: cardápio semanal, lista de compras, para não comprar demais nem de menos. Se você compra mais, joga comida fora — e joga dinheiro fora. Se compra menos, falta ingrediente o tempo todo: "Esqueci de comprar cebola, não dá para fazer o arroz".

Planejar é essencial, inclusive para o orçamento. E pensar em comida três vezes por dia cansa. Se você pensa nisso uma vez por semana, planejando, fica muito mais fácil manter uma alimentação saudável. Você compra melhor, cozinha mais, divide porções, congela.

Planejamento é fundamental. Aprender a cozinhar é fundamental.

E isso não é "assunto de dona de casa". É assunto da casa. É o motivo de eu ter me aproximado tanto do mundo da saúde pública, porque hoje a ciência e a medicina entendem que transformar alimentos in natura e minimamente processados em comidas gostosas é uma ferramenta poderosa para ter uma vida melhor, mais saudável — e mais saborosa também.

BBC News Brasil - E eu queria perguntar o que acha da inteligência artificial na cozinha, que é sempre um espaço tão humano.

Rita Lobo - Eu vejo de forma muito positiva, porque a inteligência artificial ajuda em coisas que as pessoas já não têm tanta habilidade.

Por exemplo: planejar. Se eu te disser agora "faz um planejamento básico de quatro dias do que você vai comer e uma lista de compras", você vai demorar muito tempo. E talvez nem faça tão bem quanto as nossas avós faziam, porque elas tinham essa habilidade.

A inteligência artificial sabe fazer isso. Você precisa saber perguntar, mas eu acho uma coisa muito boa.

Para criar receita, eu ainda não estou totalmente satisfeita. Eu adoraria que fosse melhor.

No Panelinha a gente tem uma equipe testando receitas todos os dias, das 9h às 18h.

A gente testa receita para quem mora sozinho, por exemplo. Porque quando você mora sozinho, você tem praticamente um relacionamento com o repolho. Ele dura. Mas você faz uma vez e, no dia seguinte, pensa: "de novo repolho?". Então a gente testa inúmeras formas de preparar o mesmo ingrediente.

Uma hora grelhado, outra hora assado com bacon, outra hora refogado com cominho, que muda completamente o sabor, outra hora em salada com maçã... A gente fica testando possibilidades.

A inteligência artificial ainda não está totalmente pronta para criar receitas assim, mas para planejamento eu acho que ela é muito boa.

BBC News Brasil - E falando de política pública, para quem quer cozinhar mais em casa, tem um cenário ideal que poderia ajudar e fazer alguma diferença contra esse lobby milionário dos ultraprocessados?

Rita Lobo - Quanto mais a gente cozinha e compra alimentos in natura e minimamente processados, mais a gente estimula esse mercado.

E quanto menos a gente consome ultraprocessados, mais a gente desestimula esse outro mercado. Claro que essa comparação não é simples, nem totalmente justa. Tem gente que realmente não consegue ter outro tipo de alimentação.

Aqui na Inglaterra, por exemplo, cerca de 52% das calorias vêm de ultraprocessados. Então é mais complexo.

A sensação de que cozinhar é um peso muda quando você entende que cozinhar é a melhor ferramenta que você tem para ter uma vida melhor. Quanto mais você cozinha, mais fácil fica.

Tem uma coisa que me incomoda muito — mas eu sou educada, não saio brigando com ninguém. Quando as pessoas dizem: "Ai, o que você faz é um dom. Cozinhar é uma arte. Eu acho lindo, mas não é para mim, eu não tenho mão."

Quando você diz isso, você está dizendo que ou a pessoa nasce com isso, ou nunca vai cozinhar. E não é verdade. Cozinhar é como ler e escrever: você não nasce sabendo, você aprende.

Todo mundo aprende a ler e escrever. Uns viram grandes escritores, outros não conseguem escrever uma mensagem direito, mas aprenderam. Cozinhar é a mesma coisa.

Não estou dizendo para ninguém virar chef, mas aquele básico para garantir uma alimentação saudável, saborosa e dentro do orçamento, todo mundo pode aprender.

BBC News Brasil - Você viaja bastante. Está em Londres essa semana. O que vê nos supermercados em comparação com o Brasil, com os Estados Unidos, outros países?

Rita Lobo - Caro. Esse é o primeiro ponto. Muito caro. No Brasil, hoje, comer comida de verdade custa mais ou menos o mesmo que basear a alimentação em ultraprocessados. Aqui, comer comida de verdade é mais caro, e isso você sente no supermercado. Os ultraprocessados são muito mais baratos.

Parte disso é porque no Brasil ainda se come muita comida de verdade, ainda existe mercado para isso.

Quanto menos a gente comer comida de verdade, mais baratos vão ficar os ultraprocessados e mais caras vão ficar as opções realmente saudáveis.

Outra coisa que me chama atenção em qualquer lugar que eu vou é que, quando estamos no Brasil, o melhor jeito de se alimentar é seguindo a dieta brasileira. Quando estamos na Itália, o melhor jeito é comer como os italianos.

Isso acontece porque essas culinárias foram sendo construídas a partir dos alimentos abundantes daquela região. Aqui na Inglaterra, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, não existe um padrão alimentar tradicional tão claro, tão equilibrado.

Quando eu chego nesses lugares, eu tento buscar coisas mais frescas, que viajaram menos. Eu adoro cozinhar onde eu vou. Vou ao mercado, compro comida e tento entender os ingredientes locais.

No Brasil, por exemplo, a gente nem imagina que cheddar pode ser um queijo maravilhoso, porque a nossa referência é aquele "plástico" amarelo. Aqui você encontra queijos cheddar incríveis, com diferentes tempos de maturação. Então é isso: buscar comida local, comer o que é da região.

BBC News Brasil - Falando em comida local, o nosso PF brasileiro… Ele é tudo isso mesmo? O que os outros países podem aprender com ele?

Rita Lobo - Ele é tudo isso e muito mais. Pensa o seguinte: há cinco grupos de alimentos que a gente precisa comer.

Um grupo é o dos cereais, raízes ou tubérculos. Esses três alimentos — um cereal como o arroz, como a aveia, raiz ou tubérculo como a mandioca, como a batata — formam um grupo, porque eles têm um papel nutricional parecido.

Aí a gente precisa comer uma leguminosa, que são os feijões, o grão-de-bico, a lentilha.

Aí a gente precisa comer hortaliças, que é tudo que vem da horta: os legumes e as verduras.

A gente precisa — quer dizer, não precisa obrigatoriamente, mas pode — comer carnes e ovos.

E a gente precisa comer frutas.

Então, o PF já tem quatro desses grupos, porque ele tem o arroz, que é o cereal; o feijão, que é uma leguminosa; o bife, o frango, o ovo ou o peixe, que entram como a carne.

E aí, nas hortaliças, ora é um chuchu refogadinho, uma saladinha com tomate, a cenoura ralada… e assim por diante.

Então, o PF é uma fórmula de alimentação saudável. Ele já traz tudo isso.

E um outro ponto: o feijão tem 19 aminoácidos. Para virar uma proteína, precisava de mais um. E o arroz tem esse essa proteína essa esse aminoácido que faltava. Então, é por isso que juntos o arroz com feijão formam uma potência nutricional.

Só fica faltando a fruta, que a gente pode — e deve — comer como sobremesa, mesmo que vá comer um doce.

Giulia Granchi, da BBC News Brasil em Londres. Publicado em 28.11.25